“Perseguição às minorias cristãs nos dias de hoje”

Mia Sátyro

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COMUNICAÇÃO INTERCULTURAL

Lisboa
2016

Perseguição às minorias cristãs
Os dias de hoje 

A minoria mais perseguida nos dias de hoje

Independentemente da fé, todas as minorias religiosas têm o direito de professar em liberdade e tolerância, ou pelo menos assim deveria ser. Porém a realidade é muito diferente. Por todo o mundo são denunciados pelos media, governos e organizações internacionais, perseguições, massacres, homicídios e todos os tipos de atrocidades cometidas contra as mais diversas minorias religiosas.
No entanto existe uma minoria perseguida que não tem quase nenhuma visibilidade internacional, curiosamente a minoria cuja qual dados estatísticos revelam ser a mais perseguida em todo o mundo, nos dias de hoje. Trata-se da minoria cristã. 
Mais de cem milhões de cristãos no mundo inteiro são vítimas de perseguição, descriminação e violência. Este número tem sido subestimado e vai para além disso, este número tem sido ignorado. 
Inúmeros ataques têm sido silenciados. Os media, os governos e as organizações internacionais não divulgam ou pelo menos não o fazem da mesma forma como para outras minorias religiosas. Quando existem denúncias estas não são sempre transmitidas internacionalmente. Isto faz com que este grave problema se torne indiferente aos olhos da humanidade, como se as minorias cristãs não tivessem os mesmos direitos de outras minorias. O mundo ignora o sofrimento de pessoas, famílias, congregações, que deveriam ter todo o direito de exercer a sua fé, não porque são cristãos, mas porque são uma minoria com os mesmos direitos de todas as outras minorias religiosas. 

Os conflitos religiosos e os interesses políticos
 “Toda a violência praticada em nome de uma religião específica é uma distorção da religião”
Romi Bencke

Os cristãos têm sofrido perseguições cruéis durante séculos. As primeiras perseguições começaram em 41 d.C pelo imperador Claudio.  Os motivos das perseguições não eram meramente religiosos, mas sim de interesse político também. O Império Romano estabeleceu sempre uma relação de inimizade com os Cristãos. 
Ao avançar na história da humanidade sabemos que vertentes do Cristianismo, tal como a Igreja Católica, também foram responsáveis por perseguições. A Inquisição, por exemplo, perseguia, julgava e punia todos aqueles que eram considerados hereges. Os hereges eram aqueles que, segundo o Papa Gregório IX, preferissem práticas diferentes daquelas reconhecidas como cristãs. Também neste caso, muito mais do que motivos religiosos, eram os motivos políticos escondidos por trás, os grandes impulsionadores.
Quase nenhuma prática religiosa está absolutamente impune de tentar impingir a sua fé sobre outras minorias religiosas, ao longo dos séculos. Muitas vezes de forma muito cruel, que levaram a guerras, genocídios e que marcaram a nossa história. Porém sabemos que essas razões não eram apenas religiosas, eram também de interesse político.  
Nos dias de hoje esperasse a coexistência pacífica no entanto os conflitos religiosos continuam. Tal como no passado, esses conflitos religiosos estão diretamente ligados com interesses políticos e econômicos que usam as diferenças religiosas para instigar conflitos. A raiz destes conflitos está num conjunto de incertezas, como instabilidade politica, ausência de estado, desigualdade econômica, afastamento da cultura e da educação. Todas essas condições são ideais para gerar fanatismo religioso. Muitas vezes essas incertezas são provocadas por países desenvolvidos com interesses numa certa região.

A invisibilidade das perseguições às minorias cristãs

Constantemente ouvimos notícias sobre as mais diversas opressões às práticas religiosas, exceto se forem relacionadas com cristianismo. 
Estima-se que mais de 4.344 cristãos foram assassinados num espaço de um ano entre o ano de 2013 e o ano de 2014, apenas por razões ligadas à sua fé. Na mesma altura mais de 1.062 igrejas cristãs foram atacados. Números subvalorizados pela comunidade internacional.
Denuncias como a do Patriarca de Bagdade que, juntamente com outros bispos iranianos, relatou em Bruxelas, à quatro anos atrás, que um grupo de fundamentalistas muçulmanos a cada semana matava uma família cristã, representa uma das carnificinas regulares que não teve qualquer visibilidade. 

O grupo pertencente a milícia islâmica Al-Shabbat que invadiu uma universidade no último 2 de Abril e atacou as vítimas de acordo com a sua religião, os que professavam fé cristã foram assassinados os que professavam outras fés foram poupados. O ataque resultou na morte de 147 e feriu 79.  
As famílias de missionários, pastores, e membros de igrejas protestantes são raptados, aprisionados e em muitos casos assassinados por grupos islamitas radicais. Esta atividade ocorre não desde de hoje e tem vindo a escalar cada vez mais. 
Porém os islâmicos radicais estão muito longe de serem os únicos a perseguir as minorias cristãs. Países da América Latina fazem dos cristãos alvos do narcotráfico, porque os seus valores arruínam o mercado da droga, uma vez que eles se recusam a colaborar. Uma atividade sem qualquer visibilidade. Na India por exemplo, existem vários lugares onde ainda é proibido por lei converter-se e confessar o cristianismo. 
Em vários países tais como o Nepal e o Sri Lanka, cristãos são mortes e posteriormente incriminados como culpados de algo que também serve como justificação da sua morte. Na China, um padre católico muito idoso, foi sequestrado porque os seus ideais ofendem o Partido Comunista. Familiares e amigos ainda nos dias de hoje aguardam por notícias.São inúmeros os casos que podem ser apresentados e uma breve pesquisa na internet os pode confirmar. Mas os mesmos não são divulgados, até mesmo silenciados. Os países com maior incidência de perseguição são, no Médio Oriente, a Síria e o Iraque, na África, a Somália, Sudão, Sudão do Sul e a República do Congo, na Ásia, Afeganistão, Paquistão e Mianmar e a Coreia do Norte do ditador Kim Jang-un, onde sabe-se que de 50 a 70 mil cristãos estão confinados em campos de detenção.

Um fenómeno subestimado no tempo
“Those who say religion has nothing to do with politics do not know what religion is”
Mahatma Gandhi

 Seja qual for a fé de cada um, ainda que a sua fé seja em não ter nenhuma fé, é impossível que um se sinta indiferente aos números e aos factos. Quaisquer que sejam os motivos, não se pode negar que a perseguição aos cristãos tem sido um fenómeno subestimado no tempo. Algo que, deliberadamente, é ignorado. 
Não porque a fé cristã é a “fé correta”, pois isso não é o que estou a defender aqui, mas não podemos negar que as bases do Cristianismo puro defendem ideais de igualdade, justiça e liberdade, tal como outras religiões no mundo. Quais seriam as consequências em certas regiões se as pessoas começassem a viver sobre esses fundamentos?  
Por que razão uma parte do mundo sente que pode viver em liberdade e assume a liberdade como um dos princípios mais fundamentais da sua existência, porém ignora o sofrimento daqueles que lutam pelo mesmo?   
Talvez seja porque os ideais cristãos não colaboram para a contínua instabilidade de certas regiões, uma vez que é uma fé baseada na igualdade e na justiça? Talvez porque com a chegada de certos ideais a liberdade do pensamento a consciencialização aumente e isso também não “convém” que aconteça em certas regiões? Talvez porque muitos dos trabalhos que os cristãos desenvolvem em países menos desenvolvidos, por vezes em situação de guerra e ditadura, são trabalhos educativos, que lutem contra a ignorância que é uma das coisas mais perigosa que existe no mundo e que é a base de toda e qualquer fanatismo? Ou talvez porque muitas pessoas ainda se sentem marcadas pela distorção da fé cristã, que igualmente como distorções de outras fés, também trouxe muita desilusão a muitas pessoas.

Nos dias de hoje, violência para com aquele que não partilha a mesma fé é absolutamente inaceitável e vai contra tudo aquilo que são os direitos do homem. Nos dias de hoje, existe consciencialização suficiente, que nos permite questionar sobre as verdadeiras razões que estão por trás de um determinado problema no mundo. 
Tratam-se de vidas que injustamente parecem ficar esquecidas. Esquecidas por vezes até pelas comunidades cristãs do Ocidente que nunca experimentaram a falta de liberdade e que sempre praticaram e partilharam a sua fé. Vivem sem medo pois a sua liberdade é fortemente protegida por culturas e governos, mas essa não é a realidade de muitos dos cristãos. 
Nos dias de hoje, não podemos fechar os olhos às largas perseguições às minorias cristãs, não podemos ignorar os números que representam vidas. Devemos questionar o porquê de todo este silêncio. Divulgar da mesma forma como divulgamos todas as outras perseguições que são igualmente inaceitáveis.  

  

Mia Sátyro

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