Portefólio Académico Sara Vaz Franco

Sara Vaz Franco

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PORTEFÓLIO ACADÉMICO SARA VAZ FRANCO


Alguns exemplos de trabalhos realizados no âmbito do Mestrado em Comunicação de Ciência da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, como reportagens, notícias e perfil no âmbito da Cadeira de Jornalismo de Ciência, reflexões sobre o papel da ciência na história e na sociedade actual, e o aprofundamento de temas com relevância social e ambiental, como a falta de aproveitamento de águas pluviais em Portugal, e a maior fonte de lixo marinho no mundo, o descarte de beatas para o chão.

Reportagem de Investigação - Dezembro 2019


Quem não anda à chuva, molha-se


Num país que desperdiça todos os anos três mil milhões de metros cúbicos de água em edifícios e redes públicas, não existe em Portugal legislação que permita reaproveitar águas pluviais em todas as utilizações não potáveis.


Em Portugal, o aproveitamento da água da chuva para utilização não potável ainda não é prática corrente. Dos exemplos disponíveis, existem os sistemas de aproveitamento de águas pluviais (SAAP) certificados pela ANQIP – Associação Nacional para a Qualidade das Instalações Prediais: nos edifícios mais recentes da Universidade de Aveiro, na Casa de Chá do parque de Aveiro, numa residência particular em ílhavo, nos edifícios residenciais e comerciais mais recentes no Parque das Nações e em dois sistemas de navegação aérea da NAV Portugal, designados VOR.


O aproveitamento da água da chuva para fins não potáveis em zonas urbanas consiste numa alternativa simples e acessível que possibilita a redução do consumo de água potável e uma melhor distribuição da carga de água pluvial nos sistemas de drenagem urbana em casos de eventos extremos, minimizando assim os a probabilidade de ocorrência de cheias.


Os SAAP consistem no método pelo qual a água da chuva que cai sobre uma superfície, normalmente o telhado de um edifício, é recolhida e encaminhada através de caleiras para uma instalação de armazenamento, normalmente um depósito, para uso posterior nos

pontos de consumo desejados. Esta técnica, inventada em diversas partes do mundo e em diferentes continentes há pelo menos 5000 anos, foi gradualmente abandonada em função da prioridade dada aos sistemas de captação subterrânea. No entanto, tendo em conta os cenários de escassez de água que já se verificam e que se prevê que venham a piorar, pode hoje ser readaptada às diferentes utilizações, sejam residenciais, comerciais ou industriais.


Regulamentação obsoleta


Apesar de a Directiva-Quadro da Água, que estabeleceu “um quadro jurídico para proteger e regenerar a água na Europa e garantir a sua utilização sustentável a longo prazo”, ter sido emitida há quase vinte anos (Diretiva 2000/60/CE), só em 2012 foi implementado em Portugal um novo Plano Nacional para o Uso Eficiente da Água (PNUEA) no seguimento das medidas propostas pela Agência Europeia do Ambiente (EEA) para o aumento da eficiência hídrica, entre as quais a utilização de dispositivos de poupança de água, a reutilização de águas cinzentas, a sensibilização para mudança de comportamento e a redução de perdas de água nas redes de distribuição e abastecimento através do aproveitamento das águas pluviais. No entanto, a regulamentação portuguesa em vigor, de 1995, não acompanhou essas directrizes, mantendo-se obsoleta.


O Decreto Regulamentar n.º 23/95 permite apenas que água não potável seja utilizada em lavagem de pavimentos, rega, combate a incêndios e fins industriais não alimentares, não prevendo o aproveitamento da água da chuva para fins não potáveis como sejam as descargas de autoclismos (28% do consumo doméstico de água) e as máquinas de lavar roupa e loiça (10%). A utilização de água potável para estes fins, assim como para rega de jardins e lavagem de pavimentos (10%), é considerada desperdício, dado que estas práticas podem ser realizadas com água de qualidade inferior, nomeadamente água pluvial recolhida e armazenada.


Segundo dados da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR), Portugal foi, em 2016, o segundo país na União Europeia com maior consumo de água por habitante, com cada português a gastar em média 187 litros de água por dia, sendo o sector doméstico responsável pelo consumo de 124 litros, ou seja, 66%. A ANQIP estimou, em 2008, que se desperdiçam anualmente três mil milhões de metros cúbicos de água em edifícios e redes públicas em Portugal, o equivalente a mais de 400 chuveiros abertos vinte e quatro horas por dia. No sector doméstico, esse desperdício corresponde a cerca de 750 milhões de euros.


Segundo Filipa Newton, Directora de Eficiência Hídrica da Adene – Agência para a Energia, este vazio na legislação portuguesa deixa o critério do aproveitamento das águas pluviais “à mercê das interpretações que as entidades gestoras de cada município fazem da regulamentação”. Uns autorizam, a muito custo, como o compravam “os anos de negociações entre Belas Clube de Campo e os SMAS de Sintra até que a implementação dos SAAP fosse devidamente autorizada.” Outros simplesmente descartam, “por desconhecimento dessa técnica, por receio de contaminações da rede pública, ou por não interessar tendo em conta o potencial de redução na facturação,” explicou a responsável.


Para responder a este desconhecimento e respectivos receios, a ANQIP desenvolveu, em 2009, as Especificações Técnicas ETA 0701 e ETA 0702, que estabeleceram os requisitos para o correcto funcionamento de um SAAP, o que representou uma evolução ao nível do enquadramento e normalização técnica no aproveitamento da água pluvial, apesar de não ter qualquer valor legal.


Chegamos finalmente a 2019, quando o Ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, anuncia, durante uma conferência comemorativa do Dia Mundial da Água (22 de Março), que está em curso a revisão do Regulamento Geral dos Sistemas Públicos e Prediais de Abastecimento de Água, de Águas Residuais e Pluviais, com o objetivo de “simplificar e harmonizar conceitos”. A comissão técnica dessa revisão é coordenada pela ANQIP, nomeadamente, pela sua Directora-Técnica Carla Rodrigues, e pelo seu fundador e actual Presidente da Direcção, Armando da Silva Afonso. Segundo o Eng.º Civil, “a falta de regulamentação não facilita a implementação do PNUEA”, sobre o qual trabalha há 10 anos.


“A Comissão Europeia elaborou o documento “BluePrint” da água, que informa os países membros que os sistemas de aproveitamento de águas pluviais devem ser fomentados com uma certificação técnico-sanitária. Portugal foi assim o primeiro país a responder e a ter essa certificação na Europa, que curiosamente nunca é utilizada, pois as entidades não sabem que existe”, explica Armando da Silva Afonso, fundador também da Associação Portuguesa dos Recursos Hídricos, membro da Direcção da Plataforma para a Construção Sustentável, perito convidado da Comissão Europeia para a eficiência hídrica em edifícios, e membro da Comissão W062 do International Council for Research and Innovation in Building and Conctruction e da IWA - International Water Association.


Conceito de “cidade-esponja”


Durante a “2ª Grande Conferência Água & Energia” que decorreu em Dezembro de 2019, Filipa Newton apresentou o projecto da Adene AQUA+, que replica o conceito do Certificado Energético de edifícios e equipamentos eléctricos numa classificação de eficiência hídrica nos edifícios, tratando-se, para já, de uma “caracterização voluntária das infraestruturas, dispositivos e equipamentos do imóvel que influenciam o consumo de água”. A responsável sublinhou o potencial desta ferramenta na dinamização do sector no sentido da eficiência hídrica, o que poderá ser um forte “empurrão” por parte dos promotores de projectos para que a nova versão da regulamentação promova a implementação de sistemas de aproveitamento pluvial.


Paulo Ferrão, Professor do Instituto Superior Técnico e presidente da associação internacional COST - The European Cooperation in Science and Technology, recordou uma imagem muito repetida durante um outro evento, a “7.ª Conferência da Plataforma China-Europa para a Água”, que foi o conceito de “cidade-esponja”. Este conceito preconiza cidades desenhadas e concebidas em torno da correcta gestão dos recursos hídricos através da desimpermeabilização das suas infraestruturas: coberturas de edifícios, parques de estacionamento, acessos rodoviários, etc., passam a ser agentes de captação, armazenamento e tratamento (quando necessário) da água da chuva para posterior reutilização. A 

iniciativa chinesa tem como meta, até 2020, a absorção e reutilização de pelo menos 70% da água da chuva em 80% das suas áreas urbanas. Portugal assumiu, no final de 2019, o secretariado europeu desta plataforma, que tem por objetivo “fomentar a cooperação entre ambas as regiões no domínio da água, nomeadamente nas perspetivas política, científica e empresarial.”


Nuno Lacasta, Presidente da APA – Agência para o Ambiente, começou pelo “óbvio: nós, em Portugal, temos que começar a reutilizar água”. Segundo o responsável, reutilizamos menos de 1% da água, quando Espanha reutiliza “sete ou oito vezes mais”. Referiu outros exemplos, como aquando da sua estadia de 10 anos em Washington, onde consumia água que era reutilizada “seis ou sete vezes”.


Leonor Picão, Directora do Turismo de Portugal, sublinhou que o recente regulamento para novos empreendimentos turísticos tem em conta aspectos de eficiência hídrica para a viabilização dos mesmos, e que “o turista vê com bons olhos esta apetência pela 

sustentabilidade” do sector, “pois já crescemos em quantidade, mas queremos muito crescer em qualidade.” A responsável do sector relembrou que “não somos predadores” de água, muito pelo contrário, “até somos bons exemplos”, destacando os empreendimentos de golf que consomem cerca de 3% das suas necessidades hídricas.


Um desses bons exemplos foi apresentado pelo responsável do Belas Clube de Campo, Gilberto Jordan, através de boas práticas de eficiência energética (construção sustentável apoiada no sistema LiderA, isolamento térmico, certificação energética de A a B-, painéis solares, baterias acumuladoras,) e eficiência hídrica, onde a água pluvial é drenada para os lagos e aquíferos que regam os espaços verdes, greens incluídos, e acumulada em depósitos nas habitações para reutilização em autoclismos, regas e lavagens.


Lá por fora


Os sistemas de aproveitamento de águas pluviais são uma técnica largamente difundida em países que promovem esta tecnologia, em alguns casos através de financiamentos, como o Japão, um dos países onde o aproveitamento de água pluvial é mais usual, o Brasil, que investiu fortemente nesta prática, principalmente em zonas semi-áridas, o Reino Unido e a Áustria.


Além do exemplo chinês nesta matéria, a Alemanha dá cartas na Europa, onde a utilização da água da chuva em edifícios de habitação se tornou largamente difundida desde a década de 80 - até 2007, cerca de 50.000 SAAP foram instalados todos os anos, principalmente em moradias unifamiliares. Berlim decidiu apostar no modelo cidade-esponja para resolver o problema das 

inundações, mas também do calor que se acumula pelo “efeito de ilha”, reactivando a ligação à Natureza: em Rummelsburg, um bairro na parte ocidental da cidade, os telhados foram revestidos a verde e as ruas preenchidas com árvores e vegetação, não esquecendo o subsolo, onde foram ainda criados corredores húmidos. A icónica Potsdamer Platz, onde outrora se ergueu e derrubou o muro de Berlim, foi palco de um projecto de diversos edifícios com um dos primeiros sistemas de gestão integrada das águas pluviais urbanas. Na Bélgica, a obrigatoriedade de instalação destes sistemas destina-se aos novos edifícios com uma área de cobertura superior a 100 m2. Estados Unidos, Índia e Austrália adoptaram medidas semelhantes.


Olhando para trás no tempo, esta prática milenar verifica-se em locais como a ilha de Creta, com os seus inúmeros reservatórios escavados em rochas anteriores a 3000 a.C. com a finalidade de aproveitamento da água da chuva para o consumo humano, o Irão, onde as cisternas subterrâneas são utilizadas há mais de três mil anos, passando por vestígios arqueológicos Maias, onde é possível admirar o complexo sistema hidráulico constituído por numerosos canais, cisternas e depósitos subterrâneos que conduzia e armazenava a água das chuvas e ao mesmo tempo eliminava a água em excesso, ou Instambul, na Turquia, palco de um dos maiores reservatórios água da chuva do mundo, o Yerebatan Sarayi, com uma capacidade de 80.000 m3.


Cá por casa


Em Portugal existem também excelentes exemplos de engenharia hidráulica relativamente mais recentes, como a Fortaleza dos Templários e o Convento de Cristo, em Tomar, construídos no séc. XVII, e abastecidos com água da chuva até à construção do aqueduto dos Pegões. Ou a Vila de Monsaraz, cuja população dos séculos XIV-XV era abastecida por um sistema de recolha de águas pluviais colectivo através de uma rede de caleiras e uma grande cisterna comum, que recolhia e armazenava a água que caía sobre os telhados das suas casas. No Algarve, a cisterna Árabe junto à muralha e muito perto da porta principal do castelo de Silves, indicia o seu papel fundamental no abastecimento da cidade. Nos Açores existem também diversos exemplos de casas que no passado utilizavam a água da chuva para abastecimento.


Actualmente, outros exemplos de aplicação moderna desta técnica também se contam pelos dedos das mãos, em empreendimentos turísticos ou casas particulares espalhados pelo país, tais como os projetos de referência da empresa Ecoágua, especializada em sistemas de aproveitamento de água pluvial. A aplicação em edifícios não residenciais tem como referências o Centro Comercial 8ª Avenida, em São João da Madeira, que reaproveita a água da chuva no abastecimento de sanitas, urinóis e rede de rega, assim como o Mar Shopping, no Algarve, o centro comercial com a maior área exterior e de lazer de Portugal, que reutiliza as águas pluviais em sistemas de rega e de combate a incêndio. Já o empreendimento de escritórios Natura Towers, em Lisboa, premiado pela Comissão Europeia como “Melhor novo edifício europeu do ano” nos Annual Green Building Awards de 2011, reaproveita a água da chuva na rega gota-a-gota das fachadas verdes dos dois edifícios.


No final, “somos o país que menos faz, apesar de termos sido pioneiros no papel”, lamenta Armando da Silva Afonso, corroborado por Nuno Lacasta, que confirma que “o PNUEA é espectacular”, mas “no papel”.

Reportagem de Ambiente - Dezembro 2019


Silêncio, que se vai observar aves


Um pisco-de-peito-ruivo anuncia-se quando os visitantes se detêm no início do percurso. Não o veem, apenas o ouvem - fácil de identificar para entendidos nestas andanças, mais um som da Natureza para leigos com ouvidos atentos. Antes desse encontro quase imediato, ainda não eram 14h30 quando a chuva, embrulhada em vento moderado, se desvanecia no Posto Interpretativo da Lagoa Pequena. Os minutos que um recém-chegado levou para trocar o calçado para umas botas resistentes a desafios não só meteorológicos como topográficos foram suficientes para se dirigir à recepção já sem chuva.


A Lagoa Pequena localiza-se no extremo oriental da Lagoa de Albufeira, inserida num sistema dunar e enfaixada entre a Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa de Caparica e o Parque Natural da Arrábida. Um dos vértices de uma tríade sagrada para os amantes da Natureza, portanto, “ou não estivéssemos nas margens de uma das maiores zonas húmidas de Portugal Continental, que é, ao mesmo tempo, um dos cinco sítios mais importantes na região europeia para circulação entre áreas de nidificação de várias espécies de aves”, lê-se no sítio da Câmara Municipal de Sesimbra.


A recepção é comummente designada “abrigo” pelos seus utilizadores, consistindo numa estrutura amovível de madeira que funciona também como loja, com instalações sanitárias num anexo mais pequeno. Dão as boas vindas aos visitantes Paula Lopes, a responsável do Espaço, Lara Broom e Marta Leocádio. Conferem a lista de inscritos neste evento promovido pela SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves) e dinamizado pelo município, o “Dia do Material Óptico”, uma oportunidade para os amantes da Natureza experimentarem binóculos e telescópios, com direito a cereja no topo do bolo: uma saída de campo com guia. 


Guilherme, um biólogo de Viseu, não se considera um observador de aves, apesar de já ter participado em alguns eventos deste tipo em vários locais do país. Trabalha principalmente com mamíferos, e veio atraído pela possibilidade de experimentar o equipamento óptico. Entusiasmo partilhado por Regina, a voluntária da SPEA de origem alemã e residente em Portugal há 35 anos, que investiga o preço de uns binóculos junto de Marta. Lara, de ascendência inglesa mas nascida em Portugal, explica as diferenças entre os modelos, encorajando os visitantes a experimentá-los. Wilson, brasileiro de origem nipónica, e Jean Claude, francófono repetente destes eventos da SPEA, estão imersos nas suas observações. 


Lá fora, cai uma árvore fora do perímetro do Espaço, evento assistido por um participante que o veio reportar à responsável. “O meu carro não está em perigo, pois não?”, questiona Paula, meio a brincar, já a perscrutar o local da queda. Pinheiros-mansos e pinheiros-bravos dominam a paisagem dos 68 hectares do espaço. Nenhum dano, mais um evento natural sem consequências de maior. O grupo segue para o que os trouxe cá, que as nuvens já descobrem o azul celeste, empurradas também pelo vento omnipresente.


Chegam mais três participantes, em cima da hora. São portugueses. 


Paula e Lara reúnem o grupo e iniciam a visita guiada com uma breve introdução ao estatuto da Lagoa Pequena, assinalando a sua importância como zona de protecção especial de aves aquáticas e de passagem de passeriformes migradores. Um dos participantes questiona se o espaço pode ser visitado de forma livre. “Estamos abertos ao público 4ªs, 6ªas, Sábados e Domingos”, explica Paula. As quintas-feiras são reservadas para escolas e as visitas guiadas efectuam-se por marcação. 


A Lagoa Pequena está ligada ao mar durante parte do ano, que é a sua fonte de água salobra. “Alguém sabe porque está aberta nesses meses?” Ninguém se acusa. Trata-se de uma tradição de Páscoa que remonta ao século XIII, devido à proximidade ao equinócio da Primavera, um período com marés mais amplas que facilitam a saída de água da Lagoa para o mar - um ritual de renovação, portanto, de forma a não eutrofizar, ou “não ficar podre”, explica Paula.


Inicia-se o percurso, com a primeira paragem junto ao dique pouco profundo que separa a Lagoa Pequena da Lagoa da Estacada. Esta lagoa constitui a zona ecologicamente mais sensível do espaço por ser onde se concentram mais aves, que aqui encontram alimento e local adequado para nidificar, “em boa parte devido à existência do caniçal adjacente”. Salgueiros e choupos coexistem nas imediações, uns ainda verdejantes, outros já nus neste início de Outono. “Olha uma alvéola”, aponta uma participante. “Cinzenta?”, procura outra. “Sim, uma alvéola-cinzenta,” uma espécie relativamente comum junto a cursos de água com rochas ou habitats equivalentes. Um rouxinol-bravo faz-se ouvir, comunicando no seu canto característico, bem audível ao longo de todo o ano nos caniçais portugueses. «Contudo, observar esta ave nem sempre é tarefa fácil», adverte o site Aves de Portugal.


O percurso desvia no ‘Observatório Galeirão’, onde participantes e guias, todos munidos de binóculos, se encolhem para caberem no exíguo espaço. Concentrados na observação das espécies que a esta hora dão um ar da sua graça na Lagoa da Estacada, avistam alguns guinchos, “umas gaivotas pequenas”, que bebericam na água, adornados já com a plumagem de Inverno caracterizada por “uma pinta na bochecha”, aponta Paula no Guia de Aves de Portugal, e uma garça-real do outro lado da margem, a cerca de 200 metros. Com o seu longo pescoço cinzento, a garça-real é muitas vezes a maior ave aquática que a vista alcança e uma das primeiras espécies a serem vistas por quem se inicia na observação de aves.


Lara aponta o telescópio aos guinchos, colocando-o à disposição dos observadores para, um a um, se debruçarem sobre o assunto. A contemplação demora alguns minutos, até ser desviada para uma actuação especial: uma águia-pesqueira, aparecendo e desaparecendo entre as copas dos pinheiros-mansos na orla da Lagoa. “Está nitidamente à caça”, comenta uma observadora entusiasmada. Esta ave de rapina branca e castanha possui um traço característico que facilita a sua identificação: uma máscara preta, que é facilmente visível quando a ave está pousada. À saída do posto, Wilson, residente em Portugal também há 35 anos, comenta que “não há penteado que resista”, apesar do seu cabelo curto e pouco acossado pelo vento. 


A caminho do próximo posto de observação, Paula promove uma paragem motivada pelo som “tipo tamagochi” de um bando de bicos-de-lacre, uma espécie residente permanente, que levanta voo ali a 10 metros, nas margens da Lagoa. De bico e máscara vermelhos, esta minúscula ave é originária de África e foi, segundo o site Aves de Portugal, «uma das primeiras espécies de aves não nativas a estabelecerem uma população selvagem em Portugal».


Avistam-se também corvos-marinhos mais ao fundo, espécie invernante mas que, curiosamente, nos visita muito cedo: no “final de Junho, início de Julho”, já se deixam observar nestas paragens, explica a guia. A garça-real que se avistou há pouco do outro lado da Lagoa, levanta voo, anunciando-se como se estivesse a 10 metros.


Retomando o percurso, agora adornado com pavimento de borracha, o grupo alinha-se numa ponte de madeira que se eleva nos caniçais, as formações florísticas densas características das margens das lagoas. Chegados ao ‘Observatório da Lontra e do Camão’, cuja estrutura ostenta o lembrete “SILÊNCIO, as aves têm ouvidos”, os participantes acomodam-se agora para contemplar o que a Lagoa Pequena tem para oferecer. Um guincho levanta voo. Avistam-se galeirões, símbolo do espaço, patos-coelheiros, corvos-marinhos e uma garça-real. “Sempre sozinha, não gosta de companhia, né?”, comenta Wilson. «Contrariamente ao que acontece no centro e no norte da Europa, onde é uma ave de jardim, em Portugal o galeirão é uma ave tímida, que não se deixa observar a pequena distância. A visão mais frequente é a de um conjunto de pontos pretos, a algumas centenas de metros de distância», lê-se no site Aves de Portugal.


Regressados ao abrigo, o pisco continua a comunicar, na sua senda territorial ou de acasalamento. Será o mesmo, ou será outro? Lara identifica um peneireiro-cinzento lá bem no alto, a pairar sobre o espaço. Uma águia-de-asa-redonda, também conhecida por bútio, junta-se a ele, e planam lado a lado, numa dança oval e tranquila, como que a premiarem os visitantes com um travo de epílogo. “Ah, isto é tão bom”, exclama uma participante. Jean Claude é o primeiro a despedir-se. “Até à próxima”, é a expressão que todos utilizam entre si, de sorriso nos lábios, na expectativa cúmplice de voltarem a encontrar-se em futuras oportunidades. 

Notícia #1 - Dezembro 2019


Espécies de aves florestais e agrícolas em declínio, alerta estudo


As populações de algumas espécies de aves florestais e agrícolas em Portugal estão em declínio, devido sobretudo às actuais mudanças de larga-escala como as alterações climáticas e a intensificação das práticas agrícolas, revela um estudo efectuado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).


Os investigadores, com a colaboração de voluntários, analisaram as tendências demográficas de 64 espécies de aves comuns em território nacional entre 2004 e 2018, sublinhando que o declínio populacional de muitas destas espécies, registado também noutros países europeus, “é um alerta para eventuais mudanças que estejam a ocorrer no meio agrícola com impacto para a biodiversidade”.


Nas espécies agrícolas, três mantiveram uma tendência negativa – picanço-real, abelharuco e milheirinha –, enquanto cinco outras espécies viram as suas tendências passarem de ‘estáveis’ para ‘em declínio moderado’ – pintassilgo, pardal-comum, cartaxo, verdilhão e andorinha-das-chaminés. Em espécies florestais, duas apresentam um “preocupante declínio acentuado” – rola-brava, alvo de caça, e picanço-barreteiro – e outras quatro registam um ‘declínio moderado’ – cuco, cotovia-dos-bosques, chapim-rabilongo e chapim-real.


Mas não são só más notícias: existem espécies que registaram tendências positivas, com destaque para a rola-turca e o rabirruivo, que habitam preferencialmente meios urbanos, e a trepadeira-azul, que prefere ambientes agroflorestais. Também o charneco e a pega apresentaram um crescimento populacional no período analisado.


Os investigadores concluem que este censo permite a identificação de importantes indicadores de biodiversidade que “reflectem as mudanças (por vezes menos visíveis) que podem estar a ocorrer nos ecossistemas e são ferramentas que podem e devem ser usadas para suportar as decisões políticas e de gestão agrícola e florestal, no contexto nacional e europeu.”

Notícia #2 - Dezembro 2019


Portugal utiliza energia de forma mais eficiente e diminui a dependência externa


Portugal registou, em 2017, um aumento da eficiência na utilização de energia e uma descida da dependência energética, por comparação com dados de 2007, revela o relatório “Energia em Números”.


Publicado no passado mês de Julho pela ADENE – Agência para a Energia, em parceria com a Direcção Geral de Energia e Geologia (DGEG), o relatório agrega pela primeira vez os dados mais relevantes sobre o sistema energético português. Os temas abordados foram: Indicadores Energéticos, Balanço Energético, Factura Energética, Produção Doméstica e Transformação, Consumo Final de Energia, Preços, Mercados de Electricidade e Gás Natural e Eficiência Energética.


Alguns indicadores energéticos


Tendo em conta a intensidade energética da economia, a utilização mais eficiente da energia em Portugal permitiu que, em 2017, a geração de um milhão de euros de riqueza consumisse “apenas” 87 toneladas equivalentes de petróleo (tep) de energia, quando em 2007 o mesmo valor de riqueza era gerado com 103 tep. “Em 2017, Portugal foi o 15.º país com a menor intensidade energética primária da UE-28, mas ainda 10% acima da média da UE-28”, lê-se no documento.


Quanto à dependência energética, Portugal desceu cerca de três pontos percentuais (p. p.) - de 82,5% em 2007 para 79,7% em 2017 -, registando-se no entanto uma subida relativamente a 2016 (74%). “Comparando com os países da UE-28, em 2017, Portugal foi o 4.º país com a maior dependência energética” (atrás de Malta, Chipre e Luxemburgo), “cerca de 25 p.p. acima da média da UE-28 (55,1%.)”.


Produção doméstica


Na produção doméstica de energia primária, ou seja, a energia que é produzida a partir de fontes endógenas, Portugal registou um aumento de 17,8% em 2007 para 23,1% em 2017. Esta produção é dominada pela biomassa (54%) e electricidade (35%), proveniente esta maioritariamente da hídrica e eólica (95%). “A produção de electricidade proveniente do solar tem vindo a crescer de forma significativa, representando em 2017 cerca de 5%”, ressalva o relatório.


No entanto, a “redução do peso da produção doméstica em comparação com a do ano 2016” (27,5%), “deveu-se à forte quebra da produção de hidroelectricidade em 2017.” O ano de 2017 fica ainda “marcado pelos valores recorde da produção fotovoltaica (85 ktep), geotérmica (19 ktep), solar térmica (86 ktep), biogás (85 ktep) e licores sulfitivos (1064 ktep)”.


Preços


Portugal assistiu, entre 2008 e 2018, a um aumento de 4,2% no preço da electricidade destinada ao sector doméstico. A nível europeu, trata-se do “6.º preço mais elevado” (atrás da Dinamarca, Alemanha, Bélgica, Irlanda e Espanha), “e o 9.º no caso do setor industrial.” No gás natural, o aumento no preço para o sector doméstico no mesmo período foi de 2,1%, sendo o 5º mais caro na Europa (atrás de Suécia, Dinamarca, Holanda e Itália), e o 9º mais barato no sector industrial.

Perfil de Investigador Pedro Aguiar - Dezembro 2019


Um produtor de ciência que nasceu da rebeldia do punk-rock e floresceu para o bioestatístico surfista, multi-instrumentalista e budista que, nos intervalos, coordena um Mestrado de Epidemiologia e dá aulas em Gestão de Saúde.


O gabinete é pequeno e a papelada engrandece ao acumular a coordenação do Mestrado de Epidemiologia e Bioestatística da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (ENSP-UNL), as aulas no Mestrado em Gestão de Saúde, a supervisão de projectos de investigação e artigos científicos, e a orientação de alunos de mestrado e de doutoramento. A parede junto à secretária de trabalho está parcialmente preenchida de fotografias do mar, e a janela por trás está orientada a nascente, de onde se vislumbram as copas das árvores do jardim que rodeia o edifício cinquentenário, colado ao Instituto Ricardo Jorge e a dois passos do Estádio José Alvalade. 


De estatura alta, pele morena curtida pelo sol, cabelo claro e olhos azuis, Pedro Aguiar passa facilmente por estrangeiro. Formou-se em Estatística na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e doutorou-se em Saúde Internacional no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova (IHMT-UNL), trabalhando desde o início na área de Epidemiologia e Bioestatística, a estatística aplicada à saúde: “Sempre gostei muito de saúde e medicina mas não tinha perfil para ser médico”. 


Descobriu a ligação da estatística com a medicina através de professores-escritores como Douglas Altman e Leon Gordis, e teve um professor holandês, quando fez uma formação de Bioestatística em Roterdão, que foi também uma grande influência: “Era um génio pedagógico e as aulas dele eram transformadas num quiz show. Mostrou-me que dar aulas também pode ser rock‘n’roll”. 


Pedro entrou na ENSP-UNL como técnico de estatística, crescendo aí num processo autodidacta através de casos específicos que lhe apresentavam e da respectiva resolução de problemas, a chamada aprendizagem de campo, que lhe permitiu introduzir a estatística em estudos de saúde, algo que já se fazia nos EUA e Inglaterra nos anos 80 e 90, mas que cá ainda não se aplicava. 


O seu primeiro chefe científico influenciou-o “muito positivamente” pelo seu pragmatismo. Foi um dos diretores do banco mundial, que apoia tragédias humanitárias, e é hoje seu colega. Por oposição, teve “outro chefe que era um autêntico ditador e percebi o que era sofrer na pele a estupidez extrema do narcisismo.” 


Paula Falcão, sua amiga de há 14 anos, fala de Pedro com admiração: “É uma pessoa muitíssimo inteligente, com grande capacidade de análise de situações e com um sentido prático muito grande, seja na vida pessoal seja na vida profissional.” Conheceram-se através do surf, na Ericeira, ficando amigos desde o primeiro dia, estreitando-se essa amizade com o nascimento do filho de Pedro, hoje com doze anos, tornando-se Paula uma “madrinha de coração” de Manuel. Segundo a amiga, ao mesmo tempo que é “um pai presente e dedicado”, através da “educação fantástica” que dá ao filho, o investigador “preza muito o seu espaço e a sua liberdade de decisão no rumo da sua vida”, aliando ao seu “lado muito racional que lhe permite ser matemático e levar a vida de uma forma tão livre e tão descomplicada”, um “lado emocional muito grande” por ter “um lado artístico muito forte”.


Pedro Aguiar tem 53 anos e dá aulas de Epidemiologia a doutorandos em Saúde Pública, cujos projectos de investigação orienta. Tem cerca de 150 alunos e faz orientação pontual “de quase toda a gente”, tendo formado 25 mestres e cinco doutorados e estando neste momento a doutorar dois médicos. Pelo meio, publica artigos como co-autor e como supervisor, considerando-se “uma espécie de produtor de ciência”: “Agarro uma ideia científica de alguém e oriento os passos para que essa ideia passe a ser ciência publicada.”


Essa parte da consultoria e orientação é a que gosta mais. “É muito giro pois as pessoas trazem-me problemas complexos para eu resolver depressa e bem, muitas vezes com aquilo que invento na hora.” Considera a arte de dar aulas “como um concerto intelectual”, pois “é preciso ter talento para dar boas aulas.” Um professor seu amigo disse-lhe que tem “a particularidade de transformar coisas complicadas em coisas simples.”


Algo confirmado pelo seu primeiro orientando de doutoramento, Nuno Duarte, que já o havia sido no Mestrado em Saúde Pública. Ficaram amigos desde então, e segundo o agora fisioterapeuta, Pedro “não complica, é uma pessoa muito simples”, não colocando barreiras entre professor e aluno. O orientador ensinou-o “a trabalhar, ou seja, não nos dá as coisas de mão beijada”, fazendo muito bem a ponte entre a metodologia de investigação e a parte estatística, “e isso foi óptimo porque eu acabei o meu doutoramento a saber fazer, o que me deu independência.” 


Alfacinha de gema


Pedro Aguiar nasceu e cresceu em Benfica, Lisboa, filho de mãe algarvia e pai nortenho, que, apesar de uma educação castradora, “sem artes nem qualquer inteligência emocional”, foram as maiores influências para o estudo e para o desporto, respectivamente. Aos 12 anos decidiu autoeducar-se e decidir o seu futuro e as suas opções, valorizando os estudos ao mesmo tempo que se expandia através da música e do karaté.


Estudou no liceu D. Pedro V, que “foi feito para ser um liceu exemplar mas que na altura acabou por ser chamado o liceu da droga”. Teve uma adolescência “conturbada, com conflitos contra o poder”, num ambiente muito influenciado pelo rock português. Nessa altura juntou-se a uma “banda punk pelo Partido Socialista Revolucionário, hoje Bloco de Esquerda” como forma de se manifestar “contra o racismo, o serviço militar, o machismo.”


Aprendeu a tocar baixo de forma autodidacta, com as maiores influências musicais em Jimi Hendrix e Ramones. Nos anos 90 formou uma banda, os Lulu Blind, patrocinados pelos Xutos e Pontapés e cujo primeiro disco foi produzido por Zé Pedro, um “grande homem pela sua genuinidade”. A banda entretanto desagregou-se, tendo um dos elementos formado os Dead Combo. Em 2018, a editora ‘Rastilho’ decidiu reeditar o disco por ocasião dos 25 anos da primeira edição. “Retomámos a banda e foi muito giro tocar bem o nosso disco, pois na altura que o fizemos ainda tocávamos mal.” Actualmente, para além de rock, gosta de ouvir jazz mais alternativo, alguma clássica, especialmente Rachmaninov – “muito bom” - mas também reggae - “todos os surfistas gostam de reggae” -, música africana e “fado, claro”. 


Quando começou a procurar casa para comprar, já nos anos 2000, optou por se afastar de Lisboa, já com preços pouco convidativos, procurando na margem Sul e na zona Oeste. Acabou por optar por Mafra, onde conseguiu comprar uma casa nova e começar a praticar surf, algo que “queria fazer já há muito tempo mas nunca tinha tido oportunidade”, tornando-se “um bocadinho viciado” até nascer o filho.


A banda actual, Zorg, permite-lhe “um regresso à adolescência num grupo de amigos.” Os concertos que dão pagam as despesas das viagens e das estadias: este ano actuaram no Festival do Avante e num Festival na Madeira, por exemplo. Esta vida de músico nas horas livres afectou-lhe a audição, manifestada numa elevada sensibilidade a sons mais fortes, que piorou com o surf, utilizando por isso protectores auriculares durante os concertos. 


Descobriu a paixão pelo piano mais recentemente, autodidacta também. O estilo que pratica é minimalista, misturando rock e jazz, numa “música muito hipnótica, muito transe”, com influências de fado também, “que as pessoas não notam”. Formou o projecto Piano Animal com outra pessoa, Diana Cangueiro, que tem formação musical e adiciona sintetizadores às criações de Pedro. Dá concertos a solo, recentemente na LX Factory, por exemplo. Proximamente dará um concerto na livraria ‘Ler Devagar’, em parceria com uma aluna que vai lançar um livro de poesia, que declamará por cima da música original dele. Estas parcerias surgem da sua iniciativa quando reconhece “arte dentro das pessoas”, pois gosta da “ligação da ciência com as artes”. Ensaia aos fins-de-semana, em casa o piano, ao domingo com a banda num estúdio que alugam em Loures. 


Tem um irmão, um ano mais velho, Professor de História, e que vive em Beja: “Nunca foi aventureiro como eu, sempre foi certinho”. Tem quatro sobrinhas, três já adultas com quem se encontra com alguma frequência para jantar fora ou que assistem aos seus concertos. Com uma delas, formada em Biologia, chega a partilhar alguns trabalhos. A sobrinha mais nova é da idade do filho Manuel, fruto do segundo casamento do pai, com os quais passa os Natais. Tem também família no Algarve, primos com quem viajou este Verão até ao Vietname, percorrendo durante um mês a sua costa de norte a sul. 


Costuma viajar, mas em trabalho, no âmbito de congressos, formações e projectos de investigação: foi a Moçambique, São Paulo, Antuérpia, Liverpool e Roterdão. Prefere esse tipo de viagem pois as estadias com duração de cerca de um mês permitem-lhe não só integrar-se nas instituições como conhecer os locais e as cidades. A experiência de que gostou menos foi a de Antuérpia, onde se sentiu “mais solitário”. A que gostou mais foi a de Moçambique, em Maputo, no âmbito de um projecto “muito interessante” sobre malária: “As pessoas são muito calorosas, mas há miséria a sério, ou seja, pessoas na rua com fome, miúdos abandonados. Aquilo não é nada fácil”. Mais tarde, teve um convite para um projecto semelhante no Malawi, mas não aceitou por achar que não tem “estofo para isso”.


No meio de toda esta actividade, Pedro Aguiar ainda arranja tempo para ler romances e livros existenciais sobre o sofrimento humano que cruzam psicologia, sociologia, espiritualidade, e para ser “budista simpatizante e praticante”. Tal como resume a sua amiga, Pedro Aguiar “gosta muito de não estar quieto”. Este Professor, orientador, surfista, budista e músico autodidacta não descarta, num futuro próximo, vir a levar a sua inquietude para a Madeira, que “tem uma Faculdade na área da Saúde, boas ondas…” e, provavelmente, um bom festival de música.

Reflexão “O que é afinal a ciência?” - Janeiro 2020


Considero fascinante a percepção do ser humano de que quanto mais sabemos, mais nos apercebemos da nossa ignorância, tal como a narrativa socrática concluiu. Segundo relatos de Platão, o maior discípulo de Sócrates, este preferia a morte do que viver sem questionamentos, na completa ignorância. Os consensos científicos são peças-chave na comunicação dentro e fora da comunidade que os “desenha”, sendo, para mim, uma “cenoura” para esse eterno questionamento no qual a origem da ciência se baseia. Nas palavras de Richard Tol, consenso não significa prova, mas a colecta ocasional do estado do conhecimento científico, útil na identificação de novas vias de investigação e potenciais alterações de paradigmas1.


O termo “consenso” é normalmente atribuído a um conceito teórico ou subjectivo, sendo definido como:


1.    Conformidade de juízos, opiniões ou sentimentos, relativamente a algo ou a alguém, por parte da maioria ou da totalidade dos membros de um conjunto de indivíduos (ex.: a votação do regulamento foi adiada por falta de consenso quanto ao texto final). = ACORDO, CONCORDÂNCIA, CONSENTIMENTO, UNANIMIDADE


2. Opinião ou posição maioritária de um grupo ou de uma comunidade (ex.: é consenso quase geral que a principal medida no tratamento do pé diabético é a detecção precoce).


3. Anuência, aquiescência, consentimento.


(Fonte: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, [consultado em 19-12-2019])


“I was never aware of any other option but to question everything.” – Noam Chomsky


A história da ciência escreve-se pelo progresso no conhecimento científico mediante não só o contexto social como a tecnologia existente, tendo a sua linha cronológica sido “encurtada” por alguns exemplos completamente disruptivos de mentes brilhantes que pensaram à frente do seu tempo e desmontaram ou reinventaram o status quo que os “consensos” implicam.


Do meu ponto de vista, é fundamental olharmos para o passado para compreendermos, na medida do possível, o presente. Já quanto a previsões e projecções de futuro, considero que são um pouco como os “consensos científicos”: constantemente actualizáveis através de factos e observações.


O último livro de Bill Bryson, um comunicador que muito aprecio, debruça-se sobre o conhecimento actual do funcionamento do nosso corpo. No entanto, o que para ele também é fascinante é o quanto ainda ignoramos: “Há tanto que ainda desconhecemos, mesmo sobre uma data de aspetos básicos do corpo humano. Comparado com o que provavelmente vamos saber daqui a cem anos ou mil, ou cinco mil, pareceremos bastante primitivos”, explicou à Revista E do Jornal Expresso.


Partilho também da sua conclusão relativamente ao contexto mundial actual: “Um dos aspectos perigosos no mundo de hoje é que muito do que as pessoas conhecem sobre ele é recebido de gente que se parece com elas, gente que vive nos mesmos lugares e faz as mesmas coisas. (...) Porque as pessoas não têm acesso a pontos de vista alternativos de outros lugares. Vivem no seu microcosmos.”


“There are no facts, only interpretations” – Friedrich Nietzsche


Objectivos


Acho especialmente relevante esta constatação de Bill Bryson, sobre a qual gostaria que a minha proposta se debruçasse, focando-se nesses dois vectores: o papel dos consensos (a sua validação ou refutação) no progresso científico e, consequentemente, socioeconómico, e debate de diferentes pontos de vista, eventualmente contraditórios, de forma a sairmos das nossas zonas de conforto, ou seja, uma acção de comunicação de ciência também para não-convertidos.


“The surest way to corrupt a youth is to instruct him to hold in higher esteem those who think alike than those who think differently.” – Friedrich Nietzsche


Demócrito, Galileu, Newton e Einstein


Carlo Rovelli, um físico teórico que se transformou também num comunicador de ciência best-seller, aludiu a estes “gigantes” do passado para explicar a importância dessa disrupção no progresso científico: “O mundo deu saltos gigantes graças às descobertas destes cientistas, que foram verdadeiros génios, mas o trabalho de cada um deles deve-se também a um esforço colectivo, à integração do conhecimento dos outros, criando novas hipóteses a partir daí. É assim que a ciência evolui e é isso que continuamos a fazer. Não podemos dizer que agora já compreendemos como é o mundo. Não compreendemos, de todo! E se no passado alguns físicos pensavam ter encontrado as respostas que faltavam, hoje podemos dizer que não sabiam nada – tal como nós nada sabemos.” (Fonte: Revista Visão)


Demócrito sistematizou, nos séculos V e IV a. C., o pensamento e a teoria atomista, avançando também o conceito de um universo infinito. Amplamente ignorado em Atenas durante sua vida, foi, até, detestado por Platão. No entanto, a sua obra foi extensamente comentada por Aristóteles (séc. IV a. C.), considerado o pai da biologia, que, por sua vez, influenciou Galeno (séc.s II e III), pai da fisiologia e da medicina. Galileu Galilei (séc.s XVI e XVII) foi o precursor da revolução científica através das suas descobertas de astronomia que contribuíram decisivamente para a refutação do geocentrismo “consensual” através da compreensão do heliocentrismo concebido anteriormente por Copérnico (séc.s XV e XVI). No caso de Galileu, obrigado a “admitir” que estava errado, e do seu contemporâneo Giordano Bruno, condenado à morte na fogueira por heresia, a Igreja Católica usou a sua autoridade para endossar o consenso da comunidade científica da época.


“We are all very ignorant. What happens is that not all ignore the same things.” – Albert Einstein


Os “pais” da ciência moderna, Isaac Newton (séc.s XVII e XVIII) e Albert Einstein (séc.s XIV e XX), foram disruptivos ao ponto de iluminarem a comunidade científica com leis explicativas do funcionamento do Universo. As características mais fascinantes do percurso de ambos, do meu ponto de vista, são o facto de o jovem físico ter passado dois difíceis anos à procura de emprego, e do matemático quarentão nunca ter escrito um artigo científico até então. Segundo uma pesquisa promovida pela Royal Society, Newton foi considerado o cientista que causou maior impacto na história da ciência, e em 1999 a revista Time nomeou Einstein como a ‘Pessoa do Século’. (Se tivessem nascido em pleno séc. XX, teriam florescido nas condições actuais de uma academia baseada em quantidade?)


Um excerto do livro História das Ciências – da Antiguidade aos


nossos dias – Volume 3 resume bem essa dicotomia de cientistas disruptores ostracizados pelos seus pares: Alfred Wegener (séculos XIX e XX) apresentou, em 1912, uma comunicação que se tornaria célebre, postulando “a hipótese segundo a qual os continentes actuais estariam primitivamente reunidos num bloco único, que se teria fragmentado; depois, os diferentes fragmentos ter-se-iam deslocado horizontalmente, como jangadas, até às suas posições actuais, que são transitórias. Geólogos e geofísicos insurgem-se violentamente contra esta teoria revolucionária. Por um lado, porque não admitem a intervenção de um meteorologista naquilo que consideram ser o seu domínio reservado; por outro, porque, na época, parecia impossível que massas tão grandes como os continentes se pudessem deslocar, mesmo que de forma muito lenta. No entanto, as reflexões de Wegener eram apenas a síntese de trabalhos anteriores, dos quais aproveitou o melhor: as observações geográficas e/ou estruturais de [Francis] Bacon e [Alexander von] Humboldt, a hipótese de Snider-Pellegrini, a teoria das «pontes continentais» de [Eduard] Suess e a formulação geofísica da geostasia, os estudos reveladores de [Frank B.] Taylor e dos seus percursores…”


“It is always advisable to perceive clearly our ignorance.” – Charles Darwin


Lamarck, Cuvier e Darwin


Jean-Baptiste de Monet, cavaleiro de Lamarck (séc.s XVII e XIX), cuja teoria transformista foi violentamente atacada, foi desacreditado pelos seus contemporâneos. Georges Cuvier, considerado uma autoridade, atrasou “durante algumas décadas o reconhecimento do transformismo. Mas, paradoxalmente, a sua obra magistral fornecerá elementos para a confirmação desse transformismo.” (Fonte: História das Ciências – da Antiguidade aos nossos dias – Volume 3)


Charles Darwin (séc. XIX), estimulado pela leitura de observações do seu contemporâneo Alfred Russel Wallace, publica a obra-prima A Origem das Espécies Através da Selecção Natural, que, para Jean Rostand “marca uma data fundamental da história do pensamento humano”, seguida de A Descendência do Homem, cuja teoria da selecção sexual como princípio adicional da selecção natural é pouco aceite no contexto sociocultural: “Ao mesmo tempo, o poder político está pouco inclinado a aceitar o transformismo. (…) Entre os adversários do transformismo, devemos também citar as instituições científicas. (…) A Academia das Ciências de Paris resolve fechar as portas a Charles Darwin, que é considerado um amador.” (Fonte: História das Ciências – da Antiguidade aos nossos dias – Volume 3)


Disrupções actuais


Actualmente, catapultadas pelo ritmo frenético do desenvolvimento tecnológico, as descobertas que ultrapassam os consensos científicos acontecem com uma frequência muito mais rápida, passando da medida de séculos para décadas ou menos, como as inúmeras descobertas de antepassados hominídeos durante o século XX, rasgando consenso atrás de consenso. Muitos outros exemplos se multiplicam pelas diversas áreas científicas, cujas teorias e conceitos são gradualmente incrementados:


1. Fenómeno atmosférico raro sobre a Antártida revela o poder dos modelos estratosféricos: “Durante décadas, meteorologistas pensavam que o clima era maioritariamente influenciado pelo que se passa na troposfera, a camada que separa a estratosfera e a superfície terrestre. Até que, em 2001, mapas de clima estratosférico diários revelaram como as duas regiões interagem.” (Fonte: Revista Nature)


2. Núcleos não esféricos minam doutrina antiga sobre estrutura nuclear: "O núcleo de um átomo de cádmio muda de forma mesmo quando a sua energia é baixa – uma descoberta que altera por completo uma convicção alargada sobre a estrutura dos núcleos atómicos.” (Fonte: Revista Nature)


3. Observações “contraintuitivas” em ilhas do arquipélago de Tuvalu contrariam previsões de “desaparecimento”: “Um estudo de 2018 da Universidade de Auckland monitorizou a linha costeira das ilhas do Arquipélago de Tuvalu durante 40 anos, verificando um crescimento da área terrestre de 3%, apesar da taxa de subida do nível médio dos mares ser o dobro naquela região do que a taxa média global.” (Fonte: Revista Nature)


4. Observações “contraintuitivas” em glaciar contrariam todas as expectativas: “Observações da NASA registaram um inesperado volte-face em Jakobshavn, o glaciar da Gronelândia mais fluido e que mais rapidamente perdeu espessura nos últimos vinte anos. Jakobshavn está agora a fluir mais lentamente, a espessar e a avançar para o oceano em vez que retrair para terra. Uma descoberta chocante para os cientistas: “Primeiro não acreditámos. Tínhamos assumido que Jakobshavn continuaria como tinha sido nos últimos vinte anos”, afirmou um cientista da NASA. No entanto, foi registada água fria perto de Jakobshavn pelo terceiro ano consecutivo. Os investigadores concluem que esta redução na taxa de perda de gelo se deve a uma corrente que transporta água para a face oceânica do glaciar ter arrefecido bastante em 2016. As temperaturas da água nas imediações do glaciar estão agora mais frias do que estiveram desde meados de 1980. Os investigadores suspeitam que a água fria foi posta em movimento por um padrão climático denominado Oscilação Norte-Atlântica (NAO na sigla inglesa), que provoca uma lenta oscilação do Oceano Atlântico Norte entre quente e frio a cada cinco ou vinte anos. Esse padrão climático atingiu uma nova fase recentemente, esfriando o Oceano Atlântico no geral.” (Fonte: NASA)


5. Duzentos Investigadores, Cinco Hipóteses, respostas não consistentes - quanta sabedoria existe na horda científica? Um estudo envolvendo mais de 15.000 sujeitos e 200 investigadores em mais de duas dúzias de países, demonstrou que, quando diversas equipas de investigação desenham os seus testes de hipótese a partir do mesmo conjunto de questões de investigação, chegam a resultados divergentes, e em alguns casos, opostos. Trata-se de uma forte demonstração de uma ideia que tem sido 

largamente discutida à luz da crise da reprodutibilidade, a noção de que as decisões subjectivas que os investigadores tomam quando desenham os seus estudos podem ter um enorme impacto nos seus resultados observados. (Fonte: Wired)


6. Abre-se uma janela, até agora desconhecida, para a vida das escribas femininas: Uma nova descoberta, feita por uma equipa multidisciplinar no Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha, sugere que algum desse trabalho de escribas e iluminadores de manuscritos da Idade Média foi feito por mulheres – e que as escribas e artistas femininas eram muito competentes, muito estimadas, sendo-lhes confiados alguns dos pigmentos mais valiosos disponíveis aos artistas no séc. XI. (Fonte: National Geographic Portugal)


Resumo da acção


O meu projecto de comunicação de ciência focar-se-ia no papel dos consensos científicos na história da ciência, através de palestras em modelo spin-off das existentes no CCB encabeçadas pela historiadora Raquel Varela, “Conversas com História”. O título seria alterado para algo como “Conversas com Ciência”, mas com dois convidados, numa troca de ideias acerca do passado, do presente e do futuro da ciência, em modelo de contraditório ou simplesmente de pontos de vista diferentes mas convergentes, mediado por jornalista ou comunicador de ciência. Da minha perspectiva, os jornalistas de ciência são, neste momento, mais generalistas e objectivos tendo em conta a percepção que têm da sociedade sobre a qual actuam. O comunicador de ciência tem, normalmente, formação científica, o que poderá ser demasiado “estrito” tendo em conta o que se pretende.


Com duração de duas horas, as acções ocorreriam uma vez por mês em cada Centro de Ciência Viva aderente, numa perspectiva de descentralização da comunicação de ciência, um pouco à imagem do que faz o Instituto de Astrofísica com as suas acções mensais espalhadas pelo país. Nessa palestra seria incluída uma secção de interacção com o público através de “pergunta-resposta”.


“To ask the proper question is half of knowing.” – Roger Bacon


Paralelamente, seria também proporcionada uma plataforma online para discussão entre cientistas e “público em geral”, participantes ou não das sessões, à imagem do “Diálogo Climático”2 promovido pelo Ministério Holandês da Infraestruturas e Meio Ambiente: “O objectivo foi explorar toda a gama de pontos de vista que os cientistas têm sobre o tema seleccionado. Todas as discussões foram iniciadas por uma breve introdução redigida pela equipa editorial, a que se seguiu a apresentação de ensaios de dois ou mais cientistas convidados. Os cientistas reagiam aos ensaios uns dos outros e às perguntas feitas pela equipa editorial. O público (incluindo outros cientistas climáticos) podia comentar sobre um tópico específico. Após a discussão online, os editores do “Diálogo Climático” escreveram um resumo que descreve as áreas de concordância e discordância entre os participantes.” (Fonte: Curry, J. 2019. Alterações Climáticas - O Que Sabemos, o Que Não Sabemos, 1ª Edição, Guerra e Paz. Lisboa)


Público-alvo


Valorizo a perspectiva de “pregar para não-convertidos”, o que poderia dirigir estas acções para o público escolar, promovendo junto das escolas a cobertura das despesas associadas ao transporte. Valorizo também a perspectiva de “pregar para públicos que não costumam ser alvo”, promovendo, por exemplo, a acessibilidade das acções junto das universidades sénior e a garantia de facilidade de acesso a pessoas com necessidades especiais, como seja mobilidade reduzida e tradução in situ para surdos-mudos. Afinal, estas duas valências podem até fazer todo o sentido, uma vez que, do meu ponto de vista, os chamados “não convertidos” talvez o sejam por serem primeiramente “público não-alvo” da acção típica de comunicação de ciência. A disponibilização de conteúdos online seria numa perspectiva de chegar ao maior número de pessoas possível, ou seja, o “público em geral” que, por variados motivos, não pode deslocar-se ao local naquela data.


Recursos necessários

- Auditório do Centro de Ciência Viva ou disponibilizado pelo município;

- Equipa de apoio técnico e logístico e material inerente quando necessário (sistema de som, microfones, computador e projector)

- Moderador e dois convidados académicos

- Água (em jarro e copos de vidro, de preferência)

- Equipa Editorial da plataforma (Comunicador de Ciência que propõe a acção e Jornalista de Ciência moderador das sessões)


Sugestões para a verificação do seu sucesso

- Contabilização do número de inscrições e de participantes nas acções

- Disponibilização de inquérito inicial e final, voluntário, para quantificação da percepção dos conteúdos abordados antes e depois da acção, para qualificação do grau de satisfação e para feedbacks, p. ex. sugestões de melhorias

- criação da hashtag associada ao evento para seguimento no Twitter, antes, durante e após a acção

- contabilização das partilhas e feedbacks nas redes sociais (Twitter, Instagram, Facebook, LinkedIn, etc.)

- contabilização das participações após as sessões através da plataforma anteriormente referida

- follow-up com o público-alvo através da criação de um concurso de reflexão, junto do Professor responsável, p. ex. “Qual a frase que mais te marcou?”, “Qual o tema que achaste mais interessante?”, ou “Qual o orador que mais te fez ver os temas abordados de outra perspectiva?”


Conclusão


Aproveito esta secção para me despedir com mais três vénias aos meus gurus em comunicação de ciência, Judith Curry, Michael Crichton e Bill Bryson:


“Além de superar o enviesamento, a natureza dialéctica da ciência pode desempenhar um papel importante na resolução de problemas de relevância social. Quando se procuram contribuições científicas para uma questão socialmente relevante, devemos reconhecer que existem hipóteses e teorias concorrentes com consequências práticas. A resolução dos problemas da sociedade beneficiaria substancialmente dos fóruns que reúnem os defensores dessas investigações concorrentes para debater e resolver os problemas conjuntos.” (Fonte: Curry, J. 2019. Alterações Climáticas - O Que Sabemos, o Que Não Sabemos, 1ª Edição, Guerra e Paz. Lisboa)


“Vamos ser claros: o trabalho da ciência não tem nada que ver com consenso. Consenso é o negócio da política. Ciência, pelo contrário, requer apenas que um investigador esteja correcto, o que significa que ele ou ela tem resultados que são verificáveis no mundo real." - Michael Crichton


“Em ciência, consenso é irrelevante. O que é relevante são resultados reprodutíveis. Os grandes cientistas da história são grandes precisamente porque quebraram os consensos. Não existe tal coisa como consenso em ciência. Se é consenso, não é ciência. Se é ciência, não é consenso. Ponto.” – Michael Crichton


“Não é necessário termos formação científica para compreendermos a ciência. Apenas necessitamos pensar sobre ela.” - Bill Bryson


Referências


1 Comment on 'Quantifying the consensus on anthropogenic global warming in the scientific literature', Richard S. J. Tol, Published 13 April 2016, https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/11/4/048001


2 http://www.climatedialoge.org

Portefólio Académico Sara Vaz Franco

Reportagens, notícias e perfil no âmbito da Cadeira de Jornalismo de Ciência, assim como reflexões sobre o papel da ciência na história e na sociedade actual, e o aprofundamento de temas com relevância social e ambiental.

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Sara Vaz Franco
Sara Vaz Franco
Comunicação de Ciência - Ambiente e Energia
Ericeira, Portugal
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