O TEMPO
Produtora Cacto Animation Studios | 2020
Ilustrações Filipa Vilela
Texto original Rita Seabra
O tempo é uma casa sem teto. Onde chove o mundo e sorri o Sol. Tem vista para o luar e pendura as estrelas no seu próprio lugar.
O tempo são as nuvens choronas num manto de inverno e os pássaros eufóricos que cantam primaveras.
O tempo são as flores adultas que se fazem colher quando crescem. E são as abelhas que as namoram. São as formigas de todo o dia, todos os dias. Sem tempo para parar.
O tempo são as guerras que levam as carnes e trazem as emoções. São os clarões mudos e os gritos ensurdecedores. São os corpos rijos que envolvem um coração mole a derreter de saudades.
O tempo são os livros que as folhas contam. São as frases que os pensamentos ditam, e palavras que alguém diz que significam.
O tempo é o dia a dia, a semana e o mês. É o dia que ofusca e é a noite de breu. É ver além da cegueira do branco e do preto. É ter tempo para preencher as formas de cor.
O tempo são os lençóis verticais no estendal que se deitam ao entardecer. São os que acolhem do frio e aquecem até ser manhã. São os que tudo cabe neles. O tempo são os lençóis grandes que guardam amor, conversas e discussões, filhos e cães. Cada qual a seu tempo.
O tempo são os abraços apertados e os longos beijos. É o amor que salta as horas e o desgosto que pesa nos segundos. E o tempo esquece. Cura. E o tempo conta-se com a emoção de voltar a tê-lo.
O tempo é aquilo que se tira de um lado para se pôr noutro. São as escolhas sensatas e os arrependimentos imediatos. O tempo é uma hierarquia constante.
No tempo cabe tudo e não cabe nada. Cabe uma vida inteira e um sopro profundamente breve. Cabe quem conhecemos e quem recordamos.
O tempo não pára, não se agarra. É esguio, grande e alto. É invisivelmente visível. Às vezes perdemos a noção do tempo. Mas ele está sempre lá. À espera que tenhamos tempo para o Tempo.