Portugal começou por parecer-me uma imensidão mas, na verdade, era pouco mais do que o bairro onde eu vivia.
Cresci na linha de Cascais. As fronteiras da minha existência, naquele tempo, iam da praia até ao jardim de Paço de Arcos (mas houve tempos em que o limite era só o ringue de hóquei). Esses eram os lugares onde as minhas pernas chegavam. Para tudo o resto ia-se de carro – com o pai, que a mãe não conduzia – Benfica, ver a avó. Damaia,ver a outra avó. O jardim do império em Belém, ver os cisnes (isso foi antes do CCB). A praia que, para se chegar, tinha de se passar a ponte sobre o Tejo (isso foi antes da Expo e da ponte Vasco da Gama).
Era o tempo em que a mãe dizia que não se podia tomar banho na linha, que havia esgotos a céu aberto e às vezes encontravam-se seringas na praia. As praias da linha estavam proibidas para nós. Esse tempo coincidiu com o tempo em que eu e a minha irmã saltávamos do forte das fontainhas para mergulhar no mar, em Oeiras.
O pai dizia que íamos votar contra o Cavaco Silva, e fomos. Votava-se na escola náutica, que era daqueles sítios onde as pernas chegavam. Às reuniões do MDP/CDE íamos de carro, mas eu nunca percebia nada do que eles discutiam.
No verão íamos para o Algarve. Isso foi antes de conhecer o Alentejo, mas não muito antes. Íamos pela serra de Monchique e eu enjoava sempre, mas pelo menos havia medronhos. Depois veio o Alentejo: a praia do Malhão, Porto Covo, a Zambujeira. Habituei-me ao horizonte amplo e é sempre a esse horizonte que volto quando volto a Portugal.
O meu mundo, quando os limites do meu país deixaram de ser a praia e o jardim, sempre ficou a sul de Lisboa. Conheci Marrocos antes de descobrir o Gerês, São Tomé e Príncipe e Angola antes de conhecer o Porto. No terraço em Tavira os banhos eram à mangueirada e, na casa da Mariana, amiga dos meus pais, aprendi a dançar uma morna. A fruta apanhava-se das árvores. As arquitecturaseram do norte de África e os sons sempre foram quentes.
Isso foi antes da adolescência. Antes da Expo, antes das noites no Bairro Alto, e no Rockline. Antes dos concertos de punk, dos góticos na Juke Box, dos primeiros beijos. Foi antes do grunge (ou talvez tenha sido durante).
A Expo chegou numa altura em que eu já fazia, conscientemente, estes paralelismos com África mas que me ia ligando também à Europa. África, para mim, sempre foi a génese, enquanto a Europa me adoptou. Visitei França, a Suíça, a Alemanha. Percebi quão do sul era à medida que descobria outros nortes. E por isso, no tempo já da Expo vi as coreografias da Pina Bausch que retratavam Portugal enquanto país africano e senti-me representada.
Logo a seguir veio o tempo da faculdade e as minhas fronteiras voltaram a ampliar-se. Tinha colegas de todos os pontos do país: Viseu, Castelo Branco, Guimarães. As vivências eram tão diversas, as músicas, os livros – acima de tudo, as pronuncias. Esse foi o tempo em que li Mário de Sá-Carneiro. Depois o Saramago e o Aquilino Ribeiro.
Na terra do Galamba andava-se de trator. Mas Lisboa já era cosmopolita e a horta do meu avô onde eu corria atrás dos pintainhos (e à frente das galinhas) teve de dar lugar à radial de Benfica.
A cidade onde nasci foi-se pondo bonita e higienizada: sinal dos tempos modernos e de uma Europa global. Mas a minha cidade e o meu país, quando sonho com eles, são sempre africanos – terra do sol, de mestiçagem, de sabores fortes e de travos amargos.