Sobreviver a um Traço de Personalidade

Lígia Reyes

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Sobreviver a um Traço de Personalidade


Como olhar para os rostos amigos:

um segundo de passado altera as suas faces

e os seus risos são uma construção do meu medo

alguém os contratou para serem dedicamente empáticos


é num instante que a sombra se demora

criando sinais, imagens: uma jovem mulher

num colete de forças pronta para a humilhação

se ao menos soubesses que os amigos estarão lá para tudo


e que poderei acordar de uma sono esverdeado 

inventando sonhos para evitar a derradeira lógica:

de que a malícia se estende ao humano

e não há como escapar de um mindset concebido


para a fuga, para criações ousadas de homens

a preto e branco com os seus fatos polidos

e os seus olhos azuis vão atrás da beleza 

quanto maior for o jogo, também eu terei de envergar


o vestido escolhido pela minha mãe


essa é a única pele que me conforta quando penso na morte

essa é a única razão para duvidar da realidade intransponível 

e que em algum momento a paranóia serve como bússola 


para quando os dias trovejam e um relâmpago é

um feixe de luz que purifica visões dantescas:

a natureza pôde construir um castelo para os malditos

basta deambular pela rua após o carnaval


e ver a água levar as máscaras, tomando de assalto a rua 

deixar que a tempestade invada os corpos desnudos

para que em comunhão possamos tecer um movimento

pela pureza - e o lar será sempre um momento de lucidez


o frio que chega aos ossos é azul e mostra a estrada

"é preciso seguir, mesmo quando obliteraram o caminho"

mesmo quando achas que a máscara te levará de volta

a um espectáculo circence para o qual não pagaste entrada 


nunca mais ninguém te obrigará à convivência próxima

com palhaços ricos a escarnecerem dos palhaço pobres

e um dia, serás forte o suficiente para libertar

o animal amestrado dentro da gaiola - dizem que és tu


dizem que o teu vestido é digno de gorjetas

houve quem pagasse o rasgão e outros, gesticulando,

traziam a caixa de costura que se perdeu no vórtice

de uma casa onde só o amor é convidado de honra


agulha, linha, tecido de polka dots: quando tinha 5 anos

queria ter sido uma princesa de tiara nos cabelos

e agora, apenas peço que o meu gesto seja digno

de um anfiteatro romano em ruinas - só assim


o tempo poderá esquecer-se de mim. 

    

Sobreviver a um Traço de Personalidade

Poema

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Lisboa, Portugal
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