Sobreviver a um Traço de Personalidade
Como olhar para os rostos amigos:
um segundo de passado altera as suas faces
e os seus risos são uma construção do meu medo
alguém os contratou para serem dedicamente empáticos
é num instante que a sombra se demora
criando sinais, imagens: uma jovem mulher
num colete de forças pronta para a humilhação
se ao menos soubesses que os amigos estarão lá para tudo
e que poderei acordar de uma sono esverdeado
inventando sonhos para evitar a derradeira lógica:
de que a malícia se estende ao humano
e não há como escapar de um mindset concebido
para a fuga, para criações ousadas de homens
a preto e branco com os seus fatos polidos
e os seus olhos azuis vão atrás da beleza
quanto maior for o jogo, também eu terei de envergar
o vestido escolhido pela minha mãe
essa é a única pele que me conforta quando penso na morte
essa é a única razão para duvidar da realidade intransponível
e que em algum momento a paranóia serve como bússola
para quando os dias trovejam e um relâmpago é
um feixe de luz que purifica visões dantescas:
a natureza pôde construir um castelo para os malditos
basta deambular pela rua após o carnaval
e ver a água levar as máscaras, tomando de assalto a rua
deixar que a tempestade invada os corpos desnudos
para que em comunhão possamos tecer um movimento
pela pureza - e o lar será sempre um momento de lucidez
o frio que chega aos ossos é azul e mostra a estrada
"é preciso seguir, mesmo quando obliteraram o caminho"
mesmo quando achas que a máscara te levará de volta
a um espectáculo circence para o qual não pagaste entrada
nunca mais ninguém te obrigará à convivência próxima
com palhaços ricos a escarnecerem dos palhaço pobres
e um dia, serás forte o suficiente para libertar
o animal amestrado dentro da gaiola - dizem que és tu
dizem que o teu vestido é digno de gorjetas
houve quem pagasse o rasgão e outros, gesticulando,
traziam a caixa de costura que se perdeu no vórtice
de uma casa onde só o amor é convidado de honra
agulha, linha, tecido de polka dots: quando tinha 5 anos
queria ter sido uma princesa de tiara nos cabelos
e agora, apenas peço que o meu gesto seja digno
de um anfiteatro romano em ruinas - só assim
o tempo poderá esquecer-se de mim.