Writing Scripts - Eles

Bruna Melo

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GUIÃO - ELES


FADE IN


INT. COZINHA DO GUILHERME MANHÃ

Guilherme está sentado à mesa, a comer cereais enquanto o seu telemóvel toca ao receber demasiadas notificações da namorada em diferentes redes sociais.

Guilherme pega no telemóvel apenas para ver as últimas mensagens.

ANA

(15º mensagem no whatsapp)

"EU NÃO ESTOU A PERCEBER O PORQUÊ DE NÃO ME RESPONDERES ÀS MENSAGENS!!! - emoji com a cara zangada"


ANA

(7º mensagem no instagram)

"AINDA ESTÁS EM CASA!?!? PORQUÊ QUE A TUA MÃE NÃO ME ATENDE!?!?"


ANA

(11º mensagem no twitter)

"JÁ TE DISSE PARA ME ATENDERES!! ATENDE PORRA!"


Guilherme tira o som ao telemóvel e pousa-o na mesa enquanto continua a comer os seus cereais.

EXT. RUA DA EMMA MANHÃ

Miguel está no telemóvel com a mochila às costa à espera da Emma.

Emma está a sair da porta do prédio com a mochila na mão, ela cumprimenta Miguel com um beijo na cara, põe a mochila às costa e os dois começam a andar.

INT. QUARTO DA CLARA MANHÃ

Clara está a dormir quando o despertador do telemóvel toca. Ela olha para o mesmo desliga-o e volta a fechar olhos De seguida abre os olhos assustada e vê outra vez as horas. Levanta-se muito rápido, corre para pegar na roupa que estava em cima da cadeira da secretária e sai a correr do quarto.


2.

EXT. JARDIM PÚBLICO MANHÃ

Petra está a atirar uma beata para o chão, cheira o cabelo, o casaco e as mãos. Tira do bolso o gel desinfectante, põe nas mãos e esfrega-as. Tira o perfume da mochila e mete-o no pescoço, um pouco pelas roupas e vai-se embora.

INT. CORREDOR DA ESCOLA DIA

Nos corredores da escola, de toda as pessoas, nota-se um pequeno grupo de amigos a falar, e então, todos eles abraçam-se com um sorriso no rosto.

CLARA

Estava com tantas saudades vossas!

(Entusiasmada)


O grupo começa a andar pelos corredores.

EMMA

Ah! Não se esqueçam que combinámos que depois da primeira aula iríamos dar um abraço à Raquel.


PETRA

E tu Emma, não te esqueças que dentro da escola tens que a tratar por professora, se não tens a bruxa à perna.

(O grupo ri, menos a EMMA)


EMMA

(Para Petra)

Não queres falar mais alto? Não te esqueças que as paredes têm ouvidos.


Logo após a este convívio, o sinal toca e eles são "obrigados" a irem para as suas aulas. Com um ar aborrecido, todos vão andando lentamente para as suas respectivas aulas.

INT. SALA DOS PROFESSORES DIA

Os professores começam a levantar-se e a arrumar as suas coisas para irem dar as suas aulas. Nada é falado.

Quando RAQUEL se levanta MÓNICA olha-a com desprezo e, talvez, até um pouco de raiva.

LUÍSA levanta-se antes de RITA e dá-lhe um beijo no topo da cabeça.


3.

MÓNICA e RITA levantam-se as duas e saem da sala.

INT. SALA DOS PROFESSORES DIA

Cenas de meros segundos em cada sala são mostradas e toca outra vez, indicando o fim da aula e o começo do intervalo. Os professores vão entrando dentro da sala e sentado-se nos seus respectivos lugares.

Batem à porta e CLARA mete a cabeça dentro da sala.

CLARA

Professora Raquel? Poderia vir aqui, por favor?


RAQUEL

Com toda a certeza Clara!

(sorri-lhe)


RAQUEL levanta-se, sai da sala, fecha a porta e é recebida por um abraço de grupo.

RAQUEL

Ai os meus meninos, há quanto tempo!

(diz com uma voz meiga e ao mesmo tempo alegre, ainda envolvida no abraço)


MIGUEL

Como se a professora não tivesse almoçado connosco a semana passada.


Separam-se do abraço felizes.

RAQUEL

Então e como é que está a correr o vosso dia até agora?


GUILHERME

Bom, não sei como é que hoje entrámos todos à mesma hora E

(Ênfase no "E")

felizmente tarde. Tendo em conta que vamos almoçar agora.


RAQUEL

Hum... Isso quer dizer que este ano o vosso horário está mais compatível?


4.

MIGUEL

Epah ya, pelo menos está melhor do que o do ano passado.


PETRA

No ano passado mal nos víamos, era horrível.


RAQUEL

Pois era! Eu lembro-me que vocês andavam mais stressados e tudo.


EMMA

Odiei esse tempo.


RAQUEL

Vocês não vão almoçar?


PETRA

A professora por acaso está a despachar-nos?

(usa um tom brincalhão)


RAQUEL

Eu não queria Petra, mas vocês sabem que a Mónica começa a fazer muitas perguntas e a mandar boquinhas para o ar.

(revira os olhos e suspira)


PETRA

E a bruxa volta a atacar!


Os rapazes riem-se.

RAQUEL

Não digas isso que ela ainda te ouve!


EMMA

Eu não te disse! Ela tem ouvidos pela escola inteira! Até dá raiva!


RAQUEL

Vão lá pessoal, eu consigo ouvir os vossos estômagos a roncarem daqui.


Todos riem-se e saem, despedindo-se com um aceno.


5.

INT. REFEITÓRIO DIA

Estão todos, menos a Emma, sentados numa mesa a almoçar. Num lado está Miguel e Guilherme, no lado direito está Petra e Clara. Petra lança um assunto.

PETRA

Nem sabem, no outro dia estava no face e...


Guilherme interrompe Petra com uma voz engraçada.

GUILHERME

Face...


Os rapazes riem-se, Clara apenas dá uma leve sorriso e Petra continua com a cara séria.

MIGUEL

Oh Petra, quem é que ainda usa o facebook?!


PETRA

(Já irritada)

Parem lá com isso, estou a tentar falar de coisas sérias! Porra!


Enquanto o grupo continua a rir, Clara sorri para Petra e dá-lhe um pequeno toque com o ombro.

CLARA

Deixa estar, tu já sabes que eles são uns parvos.

(Diz num tom suave)


Petra dá um leve sorriso para Clara.

PETRA

Como eu estava a dizer... No outro dia eu estava no face e vi o comentário do André Ventura sobre...


MIGUEL

Mas tu segues esse gajo?


PETRA

Não, mas alguém partilhou, não sei.. Já posso acabar de falar ou vais continuar a interromper-me?


MIGUEL

Desculpa.

(Diz baixinho)


6.

PETRA

Na boa, então, a notícia era sobre a aprovação do Parlamento com o fim da taxa de 200€ para a mudança de sexo no registo civil, e ele comentou,

(Petra tira o telemóvel do bolso e começa a ler)

"As grandes conquistas do orçamento de Estado desta maioria. Baixar o IVA da eletricidade, nem pensar. Subsídios de risco, não se pode. Mas para estas aberrações... Isso não falha!"


Petra pousa o telemóvel em cima da mesa e olha para os amigos.

MIGUEL

(diz enquanto está a cortar um pedaço de carne para comer)

Eu não sei qual é o espanto. Não esperava mais nada dele, a conversa dele é conversa de taberna.

(Mete o pedaço de carne na boca)

Só lhe falta ir de palito na boca e cigarro na orelha para o parlamento.


GUILHERME

Falou o comuna...


MIGUEL

Não tenho culpa se tu és ignorante o suficiente para pensar que todo o comunismo está ligado ao governo de Stalin.


GUILHERME

(Dá uma leve risadinha, com um sorriso presunçoso)

Olha que não é preciso...


Clara interrompe Guilherme.

CLARA

Pronto! Já chega!

(Bate, de leve, com as mãos na mesa)

Já tínhamos combinado não falar de política enquanto comemos! Francamente Petra!

Já sabias que iria haver esta discussão! E vocês os dois.

7.


(Aponta para os dois rapazes e recolhe o dedo pousando o cotovelo na mesa)

Miguel não dês conversa ao Guilherme. E Gui, porra a sério? Já tiveste opiniões mais interessantes.


GUILHERME

Mas...


CLARA

Mas nada! Podemos comer em paz se fazem o favor?


TODOS

Sim...

(dizem num sussurro)


Continuam todos a comer naturalmente.

PETRA

(Fala com um tom calmo e leve)

Onde é que está a Emma?


MIGUEL

Ela teve outra vez problemas com os pais. Vocês sabem que as cenas estão complicadas...


CLARA

Eu pensava que eles já se tinham resolvido.


GUILHERME

Eu ouvi-a ontem a chorar... A cena está mesmo grave.


PETRA

Isso significa que eles vão mesmo se divorciar?


Miguel ajeita-se na cadeira e mete as mãos nos bolsos antes de responder à Petra.

MIGUEL

(Suspira)

Epah ya. Tudo aponta para isso.


Petra abana a cabeça com um sinal negativo.


8.

INT. QUARTO DA EMMA

Emma está sentada agarrada aos joelhos, com a almofada no meio, e a chorar bastante.

De fundo ouve-se os pais dela a gritarem um com o outro.

Ela agarra uma fotografia na qual estão os três a sorrir muito contentes.

Emma após ficar um pouco a olhar para a fotografia, abraça-a e pega no telemóvel para mandar uma mensagem ao Miguel.

EMMA

(Mensagem no whatsapp)

Eles estão a discutir outra vez...


MIGUEL

(Mensagem no whatsapp)

Como é que estás?


EMMA

(Mensagem no whatsapp)

Mal, eles estão a discutir para ver quem é que fica comigo - emoji a chorar.


MIGUEL

(Mensagem no whatsapp)

Não fiques assim, tenho a certeza de que as coisas vão se resolver da melhor maneira :)


EMMA

(Mensagem no whatsapp)

Duvido muito, eles estão assim por minha culpa... Amanhã falamos melhor...


MIGUEL

(Mensagem no whatsapp)

Emma a culpa não é tua! Os teus pais querem o melhor para ti é por isso que estão a discutir!


MIGUEL

(Mensagem no whatsapp)

Até amanhã e vê se melhoras...


Emma vê a última mensagem de Miguel, pousa o telemóvel na cama e deita-se na mesma para tentar dormir, mesmo havendo ainda claridade lá fora.


9.

INT. CASA DA CLARA

Clara entra em casa e vai à cozinha ter com os seus pais.

PAI DA CLARA

Foi extremamente repugnante. Eu até acho que vou ter pesadelos.


CLARA

O quê é que é tão repugnante assim que te vai fazer ter pesadelos, pai?


Os pais de Clara que até agora não tinham reparado na sua presença olham para ela.

A mãe de Clara que estava a lavar a louça, seca as mãos e vai dar-lhe um abraço.

MÃE DA CLARA

Ai já chegaste filha. Como é que foi a escola?


Clara senta-se na mesa ao lado do pai e tira um pedaço de pão para comer.

CLARA

Foi boa. Como foi o primeiro dia de aulas não foi muito puxado.


MÃE DA CLARA

Que bom!


CLARA

Mas afinal do quê é que vocês estavam a falar?


MÃE DA CLARA

Nós...


O Pai interrompe a Mãe, deixando a Mãe de Clara um pouco atrapalhada, sentindo-se insignificante.

PAI DA CLARA

Eu e a tua mãe estávamos a voltar das compras quando vimos dois larilas aos beijos! Em publico!


CLARA

Ah... Mas se eles se amam... Não é como se nos tivessem a fazer algum mal...


Os pais de Clara ficam indignados.


10.

MÃE DA CLARA

Oh Céus...


O Pai de Clara levanta-se mostrando um ar superior.

PAI DA CLARA

Clara, é este tipo de ações liberalistas que fazem com que o casamento destes filhos do demónio se casem! Nós não podemos deixar que uma coisa tão sagrada seja contaminada! É bom que não voltes a dizer uma barbaridades dessas! Agora vai para o teu quarto!


Clara levanta-se de cabeça baixa e vai para o seu quarto, enquanto a sua mãe apenas observa.

INT. QUARTO DA CLARA FIM DA TARDE

Clara entra no quarto pousa a mochila à porta e olha para o seu poster da Sarah Paulson. Toca com o indicador, de leve, na bochecha daquele mero pedaço de papel e mete a música idontwannabeyouanymore.

Ela volta-se para o espelho, fica a olhar para si, tristemente.

CLARA

Eu juro que não te percebo Clara. Tu tens uns pais que te amam, tens amigos, tens condições financeiras! Custa-te muito seres normal? É ASSIM TÃO COMPLICADO? TU SÓ TINHAS A PORRA DE UMA TAREFA. VIVER CONSOANTE AS REGRAS DA SOCIEDADE... Já não bastava eu ter seguido artes... agora isto... inacreditável...


Clara começa a chorar silenciosamente e deita-se na cama a ouvir o resto da música. Quando o refrão toca pela última vez ela canta-o de olhos fechados.

CLARA

"If tear drops could be bottled,

there'd be swimming pools filled by models,

told "a tight dress is what makes you a whore",

if "i love you" was a promise,

would you break it, if you're honest?,

tell the mirror what you know she's heard before,

11.


i don't wanna be you, i don't wanna be you, i don't wanna be you... anymore.


EXT. RUA FIM DE TARDE

Petra está a fumar um cigarro quando um amigo seu se aproxima e senta-se ao seu lado.

AMIGO

Ei, tenho um fumo novo para ti.


PETRA

Se for igual ao último é um bela merda.


AMIGO

Puto, este veio diretamente de Espanha, ponho as minhas mãos no fogo em como nunca fumaste algo tão bom!


PETRA

Sendo assim... Gira aí.


O Amigo tira do bolso o pequeno saquinho, dá a Petra e a mesma levanta-se.

PETRA

É sempre um prazer trabalhar contigo.


Petra vai-se embora.

INT. CASA DO GUILHERME

Batem à porta e Guilherme vai abrir.

ANA

Eu sei que fui um pouco possessiva esta manhã, mas tu sabes que eu só tenho este tipo de comportamento porque tenho medo que tu te fartes de mim e que acabes comigo... Estou perdoada?


Enquanto Ana falava aproximava-se de Guilherme até ficar coladinha a ele.

Guilherme abraça-a.


12.

GUILHERME

Eu sei que tu não fazes de propósito, meu amor.


Guilherme dá-lhe um beijo.

GUILHERME

Entra. Vamos ver um filme.


INT. QUARTO DO GUILHERME

Guilherme estava sentado na cama junto com Ana à procura de um filme para verem no computador.

Ana aproxima-se mais e olha para ele.

ANA

Tens a certeza que só queres ver um filme?


GUILHERME

Sim. Mas posso ir fazer umas pipocas se quiseres.


ANA

Eu estava à espera de fazer algo mais produtivo.


GUILHERME

Como por exemplo?


ANA

Bom... Aquilo que os namorados costumam fazer. Sabes? Sexo.


GUILHERME

Ahhh...


ANA

Não queres? É isso?


GUILHERME

Ainda não me sinto pronto, já tínhamos falado sobre este assunto.


ANA

Não percebo que raio de adolescente, homem, não quer fazer sexo.

(Diz chateada)


Guilherme fica calado.


13.

ANA

Ao menos posso ir buscar alguma coisa para bebermos?


GUILHERME

Sim, claro.


Ana levanta-se e vai até à cozinha.

INT. COZINHA DO GUILHERME NOITE

Ana tira dois copos do armário, vai até ao frigorífico e tira de lá a vodka preta, o sumo de laranja e maracujá e mete dentro dos copos. Ana fica um pouco a olhar para eles até que, muito rápido, tira do bolso uma caixa de comprimidos pega numa das cápsulas, abre-a e mete-a num dos copos, pega neles e na garrafa de vodka preta e leva-os consigo.

INT. CASA DO GUILHERME NOITE

Após Ana já ter dado muitas doses de vodka preta a Guilherme ela tenta dar mais um pouco.

ANA

Só mais um bocadinho.


Ana diz e obriga Guilherme a beber diretamente da garrafa.

GUILHERME

Eu... E..u... Acho que já bebi muito

(Ri-se à gargalhada)

Porquê que me apetece beijar-te?


Ana senta-se por cima do tronco Guilherme, já que este estava deitado, com uma perna em cada lado e começa a beijar o seu pescoço.

GUILHERME

Ana... Isso faz cócegas.

(Ri-se)

Porquê que eu estou duro?

(Ri-se outra vez)


ANA

Porque eu meti viagra no teu copo.


Ana continua a beijar o pescoço de Guilherme enquanto ele fica calado por um momento.

GUILHERME

S...Sai...


14.

Ana desce o seu corpo até ao cinto de Guilherme começa a abri-lo.

ANA

Não sejas um empata fodas, Guilherme.


Ana baixa as calças e os boxers de Guilherme e mete-lhe o preservativo.

GUILHERME

A... Ana... Eu n-não quero...

(Diz lentamente devido à bebida)


Ana encaixa o pénis na sua vagina e senta-se.

ANA

Demasiado tarde.

(Dá um leve risinho)


Ana começa a mover-se.

GUILHERME

S-sai... Eu não q-quero


Guilherme tenta empurrar Ana, contudo, sem sucesso.

ANA

É que nem penses. Agora ninguém me tira daqui.


GUILHERME

M-mãe! Mãe!


Guilherme chamar a mãe, mas a mesma não o ouve porque a sua voz estava demasiado baixa.

Ana tapa-lhe a boca com a mão e ri-se.

ANA

A sério que estás a chamar pela tua mãe? Tu és uma piada.

(Ri-se)


Guilherme fecha os olhos e começa a chorar silenciosamente.

DIA - CORREDOR DA ESCOLA

Após uma aula, CLARA que fica mais atrás do seu grupo de amigos e vê a professora RITA a ir para a sala de professores.


15.

CLARA

Pessoal, eu tenho uma coisa para fazer, vão andando que eu já lá vou ter.


TODOS

Está bem.


INT. CORREDOR DA ESCOLA DIA

CLARA corre em direção a RITA e chama-a.

CLARA

Professora Rita!


RITA

Sim?


CLARA

Tem uns minutinhos?

(diz claramente nervosa)


RITA

Não.

(diz obviamente e continua a andar.)


CLARA

Por favor...


Clara toca de leve no braço da professora parando-a.

RITA suspira reparando que o assunto era sério.

RITA

Fala depressa que o meu tempo está escasso.


CLARA

Hum.. Eu gostaria de falar num sitio mais privado.


RITA revira os olhos.

RITA

Aquela sala está livre, vamos.


CLARA baixa a cabeça e segue a professora até à sala. As duas entram dentro da sala e sentam-se.

RITA

Vá. O que é que tinhas para falar comigo?


16.

CLARA estava muito nervosa.

CLARA

Es... Esta conversa é um bocado pessoal e eu gostaria que não comentasse com ninguém.

(fala a última parte a correr)


RITA

Clara eu já te disse que estava com pressa e...


CLARA

... Sim! Eu sei, prometo ser rápida.

(diz interrompendo-a e sentando-se em cima da mesa)


RITA e CLARA tinham deixado a porta entreaberta por isso quando LUÍSA estava a passar e reconheceu a voz encostou-se à parede, espreitando.

CLARA

Eu acho que tenho um problema e precisava que a professora me ajudasse.


RITA

Tu achas...


CLARA

Não! Eu tenho a certeza.

(diz nervosa, com sinais de ansiedade)


RITA

Então e qual é o teu problema?

(diz já a ficar sem paciência)


CLARA

Eu estou a falar consigo porque eu não me sinto confortável para falar com mais ninguém, e como a stora... pronto, enfim...


RITA

Eu não te estou a perceber.


17.

CLARA

(Olha-a nos olhos)

Como é que a professora se apercebeu que gostava de mulheres.


RITA fica obviamente surpresa, respira fundo, sorri amavelmente e senta-se ao lado de CLARA na mesa.

RITA

Então é este tipo de conversa. Bom, foi quando eu comecei a olhar para elas de outra forma, mais especificamente quando me apaixonei por uma colega no meu primeiro ano de faculdade.

(Faz uma curtíssima pausa)

Posso perguntar o porquê dessa pergunta?


CLARA

Bom, é que eu estou a sentir-me de uma forma diferente e a minha família pensa que este tipo de sentimentos são abomináveis... Então decidi vir falar consigo.


RITA

Clara, os teus sentimentos não são abomináveis. A tua orientação sexual não define nada em ti, tu continuas a ser a mesma. E os outros só têm que aceitar isso.

(suspira fazendo uma pausa)

Agora eu presumo que tenhas que ir almoçar, não é?


CLARA

Sim, tenho.

(Levanta-se)


RITA

Então vai lá, e espero que tenhas percebido que não há nenhum problema contigo.

(Levanta-se logo após Clara)


CLARA vai até RITA e abraça-a com força.

CLARA

Obrigada!


CLARA sai da sala a correr e não repara que LUÍSA estava à porta.


18.

INT. SALA DE AULA DIA

RITA não se mexe e cruza os braços.

RITA

Há quanto tempo é que estás aí Luísa?


LUÍSA entra na sala.

LUÍSA

Há tempo suficiente.

(Diz calmamente com um sorriso aproximando-se de RITA)


RITA

Ouvir atrás das portas é muito feio, sabias?


Entretanto LUÍSA já estava bastante próxima e põe-lhe as mãos à volta do pescoço, pondo um mecha do cabelo, que estava à frente da cara, por trás da orelha.

LUÍSA

Sim, eu sei e eu ia sair, mas quando te ouvi a dizer aquilo à Clara, senti-me muito orgulhosa por ti, sua totó, geralmente és mais fria que uma pedra. Nem sei como é que ela te convenceu a vir para aqui.

(Luísa)


RITA

Com que então eu sou mais fria que uma pedra e uma totó?


LUÍSA

Claro!

(Ri-se de leve)


RITA

Ai é?


RITA pega LUÍSA pela cintura e rodopia-a enquanto se riem.

Elas param e ficam a olhar uma para a outra, o que pára este momento é o som da porta a ser batida.

Rapidamente afastam-se.

LUÍSA

Sim?


19.

ALUNO

Professora Luísa, posso falar consigo?


LUÍSA

Sim, sim, com certeza.

(atrapalhada)


RITA aproveita a deixa e sai da sala com LUÍSA enquanto a mesma vai falar com o aluno.

INT. REFEITÓRIO DIA

O grupo já estava todo sentado a almoçar.

GUILHERME

Já que tu dizes saber tanto sobre o assunto vamos lá ver se tu sabes alguma coisa de história.

(diz esfregando as mãos com um ar maléfico)

História do LSD, 1, 2, 3, está a contar.

(aponta com o indicador para o pulso como se tivesse um relógio)


PETRA

Bom... Hum... LSD foi criada pela primeira vez por acidente, por um cientista suíço...

(diz atrapalhada)


GUILHERME

E mais?


PETRA

Epah sei lá.


EMMA

Mas afinal porquê que as drogas vos interessam tanto?


PETRA vai até à mala e tira de lá um saquinho.

CLARA

O que é isso?

(diz curiosa)


PETRA

Vejam.

(atira o saquinho para cima da mesa)


20.

CLARA

Tu trouxeste droga para a escola!?


PETRA

Não queres falar mais alto? É que eu acho que ainda não te ouviram no Cacém!

(diz enervada e a sussurrar)


EMMA

Ok, mas tu consomes?


PETRA

Às vezes.


EMMA

Às vezes? Tipo o quê?


PETRA

Tipo, todos os dias.


EMMA

Uau.


Fica um clima estranho na mesa e limitam-se a comer.

GUILHERME

Tu sabes o quê que tu estás a fazer ou isso é apenas conversa?

(diz sério)


PETRA

É claro que eu sei o que estou a fazer, porquê?


GUILHERME não lhe responde e o sinal toca para o intervalo.

EXT. JARDIM DA ESCOLA DIA

ANA já estava sentada num banco e GUILHERME senta-se ao lado dela, abraça-a enquanto ela ainda está de braços cruzados e chateada.

ANA

Estás atrasado Guilherme.


GUILHERME

Eu quero saber o que é que aconteceu naquela noite.


ANA

Onde é que estiveste?


21.

GUILHERME

Isso não importa eu só quero saber o que é que aconteceu.


ANA

Ah, então quer dizer que tu nem um namorado decente conseguiste ser para vires almoçar comigo.


GUILHERME

ANA!


ANA

Não me venhas com Ana!


GUILHERME afasta-se um pouco.

GUILHERME

Eu lembro-me pouco daquela noite, e do que eu me lembro é bastante doloroso. Eu só quero saber o porquê! O PORQUÊ DE TERES FEITO O QUE FIZESTE!


ANA dá-lhe um estalo, empurra-o e levanta-se.

ANA

Então quer dizer que eu sou tão importante quanto as outras pessoas? Tu és incrível, a sério!


ANA vai embora e deixa GUILHERME sozinho, até Petra aparecer.

PETRA

Guilherme! O que é que foi aquilo?


GUILHERME

NADA!


GUILHERME tenta sair mas PETRA segura-o no braço.

PETRA

Guilherme! Eu sei bem o que vi!


GUILHERME

Tu não viste nada! Deixa-me em paz!


GUILHERME solta-se e começa a andar rápido.

PETRA, indignada, volta para dentro da escola.


22.

INT. SALA DE AULA DIA

PETRA está sentada na sala de aula, sozinha, a fechar uma ganza.

Quando acaba de a fechar recebe uma chamada.

PETRA

Então puto tens mais fumo para mim?


PETRA revira os olhos.

PETRA

Sim, eu sei que te estou a dever mas tu tens que compreender que nem sempre eu tenho dinheiro.


A chamada continua e PETRA fica curiosa.

PETRA

Como assim tu sabes o que pode resolver o meu problema?


A chamada continua.

PETRA

Sim, claro que estou interessada, sou toda ouvidos.


EXT. JARDIM DA ESCOLA DIA

EMMA e MIGUEL estão sentados na relva. MIGUEL está com o braço por baixo do pescoço de EMMA e faz-lhe cafuné.

EMMA deita-se de lado põe a mão e o queixo por cima do peito de MIGUEL.

EMMA

Isto é errado Miguel?


MIGUEL

O quê?


EMMA

Nós.


MIGUEL

Às vezes amigos apaixonam-se mesmo sabendo que isso é errado.


EMMA

Ah...


23.

EMMA volta à posição anterior, olha para o céu e suspira.

EMMA

Espera. Quem é que disse que nós estamos apaixonados?


MIGUEL

Eu sei.

(diz olhando para o céu)


EMMA volta a virar-se e a meter a mão e o queixo por cima do peito de MIGUEL.

EMMA

E como é que tu sabes?


MIGUEL

Porque eu sinto. A não ser que tu não o sintas.


EMMA deita a cabeça no peito de MIGUEL e olha para a relva.

MIGUEL

Não respondeste à minha pergunta.


EMMA

Tu não fizeste nenhuma.


MIGUEL senta-se assim "obrigando" EMMA a sentar-se também.

MIGUEL pega na mão de EMMA.

MIGUEL

Emma, tu estás apaixonada por mim?


EMMA olha-o nos olhos.

EMMA

Boa pergunta.

(sorri)


A campainha toca e GUILHERME acorda.

INT. QUARTO DO MIGUEL TARDE

MIGUEL acorda no quarto atordoado pelo sonho que teve.

MÃE DO GUILHERME

Guiiii!! Anda arrumar a louça que sujaste!!

(voz de fundo)


24.

GUILHERME

Já vou mãe!


MÃE DO GUILHERME

AGORA!


GUILHERME

JÁ DISSE QUE JÁ VOU!

Porra pah.

(diz a última frase mais para dentro)


INT. SALA DE AULA TARDE

MÓNICA está dentro da sala de aula a preparar a matéria para as próximas aulas quando RAQUEL bate à porta.

RAQUEL

Posso?


MÓNICA revira os olhos.

MÓNICA

A sala não é minha, pois não?


RAQUEL entra dentro da sala e senta-se ao lado de MÓNICA virando-se para ela.

MÓNICA suspira, pára de escrever, cruza as mãos e olha para RAQUEL.

MÓNICA

Sabes, a sala não é minha mas eu ainda gosto do meu espaço.


RAQUEL

Desculpa.


RAQUEL fica atrapalhada e afasta-se um pouco.

MÓNICA

Sim...


RAQUEL

Tu dás aulas ao Guilherme, certo?


MÓNICA

Que Guilherme?


RAQUEL

12º de economia.


MÓNICA fica um pouco pensativa.


25.

MÓNICA

Sim, acho que dou.


RAQUEL

Boa, então eu já falei com a Rita e com a Luísa e elas concordaram em ajudar-me.


MÓNICA

Ajudar? No quê?


RAQUEL

Eu conheço o Gui e hoje eu vi uma discussão entre ele e a namorada, e eu acho que nós devíamos intervir.


MÓNICA

Porquê? Oh Raquel, eles já são grandinhos não achas?


RAQUEL

Sim mas...


MÓNICA

...Mas nada. Eles têm a vida deles ponto.


RAQUEL

Ok, já vi que não dá para ter uma conversa contigo, se quiseres fala com a Rita ou com a Luísa.


RAQUEL levanta-se e sai da sala.

EXT. CAFÉ TARDE

RITA e LUÍSA estavam sentadas uma ao lado da outra, quando MÓNICA aparece e senta-se à frente das duas.

MÓNICA

Então meninas, como é que foi o vosso dia?

(diz enquanto pousa a sua mala na cadeira ao lado)


LUÍSA

O meu foi bom.

(diz ao olhar para Rita)


RITA

É, o meu também.

(diz ao olhar para Luísa)


26.

Mónica revira os olhos.

MÓNICA

Voltando ao que interessa. Hoje a Raquel veio falar comigo.


RITA

A sério?


MÓNICA

Sim, sim. Foi para falar-me de um rapaz de economia que está a ter problemas com a namorada.


LUÍSA

O Guilherme?


MÓNICA

Esse mesmo, como é que sabes?


LUÍSA

Eu dou-lhe aulas e já tinha percebido que aquela relação é um bocado tóxica. Mas porque é que ela foi falar contigo sobre ele?


MÓNICA

Precisamente por isso. Porque ela queria que juntas, tentássemos falar com para o ajudarmos.


LUÍSA

Isso parece ser uma boa ideia. Tu aceitaste, certo?


MÓNICA

Claro que não! Primeiro, a vida do rapaz não é da nossa conta. Ele já tem idade suficiente para tomar conta de si. E segundo, imagina eu e a Raquel a "trabalhar" nisto juntas.

(Faz aspas como os dedos ao dizer a palavra "trabalhar")


LUÍSA

Mónica, ele tem 18 anos, o que é que tu sabias com essa idade?


MÓNICA

Olha muita coisa. Principalmente com quem é que me devo dar ou não.


27.

RITA

Por amor de Deus. Ok, eu já estou na minha hora. Luísa queres boleia?


RITA diz entediada enquanto se levanta.

LUÍSA

Claro! Até amanhã Mónica, e tenta pensar melhor na proposta da Raquel por favor.


MÓNICA

Não obrigada e até amanhã.


INT. SALA DE JANTAR DA CLARA NOITE

CLARA estava sentada à mesa quando recebe uma mensagem de um número anónimo. A mensagem continha uma foto na qual estava a mãe dela a beijar outro homem.

CLARA fica surpresa olha para a mãe, que estava a olhar para o prato, desliga o telemóvel e volta a comer sem muito apetite.

INT. CASA DE BANHO DO GUILHERME NOITE

GUILHERME sai do banho já de toalha quando vai ao telemóvel e percebe que tem uma mensagem de um número desconhecido.

A mensagem continha um gif da cena que tinha acontecido ainda aquela manhã do estalo que ANA lhe tinha dado.

INT. QUARTO DA CLARA NOITE

CLARA estava quase a adormecer quando é acordada pelo seu telemóvel que tinha acabado de receber uma mensagem. Essa mensagem tinha um audio da conversa que tinha tido com a professora Rita sobre a sua sexualidade.

CLARA começa a chorar enquanto ouve o audio e atira o telemóvel para o outro lado do quarto.

EXT. VARANDA DA PETRA NOITE

PETRA estava na varanda a fumar um cigarro enquanto estava no Instagram e recebe uma mensagem de um número desconhecido.

A mensagem continha um vídeo dela a vender droga. PETRA claramente perturbada.


28.

INT. SALA DE ESTAR DO MIGUEL NOITE

MIGUEL estava a ver um filme e recebe uma mensagem que continha printscreans de conversas que teve com o GUILHERME a declarar o seu amor a CLARA.

MIGUEL acredita que é apenas uma partida por isso pousa o telemóvel descontraído e volta a ver o filme.

INT. CORREDOR DA ESCOLA DIA

Após a primeira aula CLARA apressa-se a sair para poder falar com a professora RITA no corredor. Quando a encontra aborda-a.

CLARA

Professora Rita?


RITA

Sim, Clara? Precisas de alguma coisa?


CLARA

Poderia falar consigo em particular?


RITA

Sim.


EXT. JARDIM DA ESCOLA DIA

CLARA e RITA foram para fora da escola para terem um pouco mais de privacidade.

RITA

Diz Clara. Tens mais alguma duvida?


CLARA

Por acaso tenho mas é uma coisa mais complicada.


RITA

Se eu puder ajudar...


CLARA

Ontem à noite recebi uma mensagem de um número anónimo com um áudio da conversa que tivemos no outro dia na sala de aula.


29.

RITA

Como é que isso aconteceu? Não estava ninguém connosco naquela sala.


CLARA

É por isso mesmo que eu estou preocupada. Eu não sei quem é que mandou isto e não sei o que irá fazer com esta informação!


RITA

Eu tive uma ideia. Será que me deixas falar com a professora Luísa sobre o assunto para ela nos conseguir ajudar? Ela é muito boa com investigações, encontrar pistas e etc.


CLARA

Eu não tenho muita certeza quanto a isso, mas pode ser. Tendo que não comente com mais ninguém.


RITA

Tudo bem.


CLARA

Então prometa-me.


RITA põe a mão no ombro de CLARA.

RITA

Eu prometo Clara.


CLARA

Obrigada.


RITA

Não tens de quê.


INT. CORREDOR DA ESCOLA DIA

GUILHERME e MIGUEL estavam só os dois no telemóvel a jogar quando MIGUEL puxa conversa.

MIGUEL

Foste muito engraçado com a mensagem de ontem. Puseste o teu número em privado e tudo. Parabéns!


GUILHERME

Que mensagem?


30.

MIGUEL para de jogar para olhar para Guilherme.

MIGUEL

Como assim "que mensagem"? Aquela dos prints da nossa conversa no whatsapp em que...

(fala a próxima parte baixinho)

...Eu estava a contar-te que gostava da Ema.


É a vez de GUILHERME, e este para de jogar para olhar o amigo.

GUILHERME

Eu não te mandei nada. Posso até mostrar-te as minhas conversas.


MIGUEL

Guilherme, já não estás a ter piada nenhuma.


GUILHERME

Juro pela minha mãe. Eu não te enviei nada!


MIGUEL

Então quem é que me enviou aquilo?


GUILHERME

Não faço a mínima.


INT. REFEITÓRIO DIA

Depois de uma longa manhã de aulas os amigos encontram-se na fila do refeitório.

PETRA que não estava na fila foi a correr ter com GUILHERME.

PETRA

Guilherme, preciso de falar contigo.


GUILHERME

Ok, diz.


PETRA

Aqui não.

(diz mais baixinho)


GUILHERME

Petra, agora estou na fila para almoçar.


31.

PETRA

Eu pago-te o almoço no Mac.


GUILHERME

Sendo assim. Bora.


EXT. RUA À BEIRA DA ESTRADA DIA

PETRA e GUILHERME estavam a comer o seu almoço quando GUILHERME começa a falar.

GUILHERME

Então... Sobre o que é que querias falar?


PETRA

Eu queria falar contigo porque recebi uma mensagem anónima muito preocupante.


GUILHERME

Tu também?


PETRA

O quê? Tu também recebeste?


GUILHERME

Eu e o Miguel... Achas que a Clara e a Ema também receberam?


PETRA

Não sei. O que é que recebeste?


GUILHERME

Um gif do estalo que a Ana me deu antes de tu chegares. E tu?


PETRA

Bem, eu...


GUILHERME

Petra, o que é que recebeste?


PETRA

Eu recebi um vídeo meu a vender droga.


GUILHERME

PETRA!


PETRA

SIM, EU SEI!


32.

GUILHERME

Se soubesses não estávamos nesta situação!


PETRA

Nós não estamos nesta situação por minha culpa! Eu já estou a pagar as minhas dividas!


GUILHERME

Porra Petra! Eu não estou a acreditar.


PETRA

Desculpa.


GUILHERME

Vamos-nos concentrar.

(diz ao pressionar as temporas como se tivesse com dores de cabeça)

Temos que falar com o pessoal.


PETRA

Mas...


GUILHERME

Quer tu queiras quer não, podemos estar a enfrentar uma pessoa perigosa. Temos que falar com eles.


PETRA

Está bem.


PETRA levanta-se, pronta para ir ter com os amigos.

GUILHERME

Agora?


PETRA

Eu só quero despachar isto e temos que ir rápido antes que a hora de almoço acabe.


GUILHERME também se levanta e vão os dois andando para a escola.

INT. SALA DOS PROFESSORES TARDE

RAQUEL estava sentada a tratar de avaliações no seu computador quando LUÍSA vai ter com ela.


33.

LUÍSA

Tudo bem?


RAQUEL

Estou a fazer umas avaliações, mas sim. E contigo?


LUÍSA

Também.

(remexe-se um pouco na cadeira)

Eu queria falar contigo sobre o assunto que comentaste com a Mónica.


RAQUEL que até agora estava de óculos e concentrada, tira os mesmo para dar atenção total a LUÍSA.

RAQUEL

Oh.


RITA entra dentro da sala, vai direta a LUÍSA e senta-se ao seu lado.

LUÍSA

Boa tarde.


LUÍSA beija RITA na bochecha.

LUÍSA

Eu estava a comentar o assunto do Guilherme.

(olha amorosamente para RITA)

Como estava a querer dizer, eu queria oferecer a minha ajuda para colaborar contigo e ajudá-lo.

RAQUEL

A sério!?


LUÍSA

Sim! Também queres Rita?


RITA

O quê?


LUÍSA

Ajudá-lo.


RITA

Ah sim. Claro, porque não?


34.

RAQUEL

Fico mesmo contente! Muito obrigada, a sério.


RAQUEL fica muito empolgada e abraça as colegas.

RITA

De nada. Bom, Luísa preciso de falar contigo sobre a Clara como te tinha dito.


LUÍSA

A menina de artes, certo?


RITA

Essa mesmo. Vamos?


LUÍSA

Sim.

(sorri-lhe)


INT. ESCOLA TARDE

PETRA e GUILHERME vão de encontro ao resto do grupo que estavam sentados a falar.

GUILHERME

Precisamos de falar com vocês.


EMMA

Sobre o quê?


GUILHERME

Vocês as duas também receberam alguma mensagem estranha.


CLARA

Porquê?


GUILHERME

Porque nós os três recebemos e eu acho que temos que nos salvaguardar porque isto pode correr muito mal.


EMMA

Eu recebi.


CLARA estava nervosa mas não disse nada.

GUILHERME

E tu Clara?


35.

CLARA

Não, não recebi nada. Agora preciso de ir.


CLARA tenta ir embora mas PETRA vai atrás dela.

PETRA

Está tudo bem?


CLARA

Tudo ótimo. Posso ir agora?


CLARA tenta sair mas PETRA volta a pará-la.

PETRA

Clara, eu não só sei quando tu não estás bem, mas também sei quando me estás a mentir.


CLARA olha-a nos olhos com tristeza e vai embora.

EXT. JARDIM DA ESCOLA TARDE

CLARA estava sentada na relva quando RITA e LUÍSA se aproximam e sentam-se ao seu lado.

RITA

Não estás a ter aula agora, Clara?


CLARA

Estou.


RITA

Então e porque é que não estás na sala?


LUÍSA

Rita!


RITA

O que é que foi?


LUÍSA revira os olhos e continua a falar.

LUÍSA

Clara, a Rita falou comigo e eu já tenho uma solução. Mas acho que não vais gostar.


CLARA

Qual é?


36.

LUÍSA

Fazer queixa na polícia.


CLARA

Não posso! Se os meus pais descobrirem, na melhor da hipóteses, ele expulsam-me de casa!


LUÍSA

Eu pensei nisso e se isso realmente acontecer vens morar comigo. Eu estive a ler a tua ficha e como já tens 18 anos podes tomar decisões próprias.


CLARA

Eu não posso aceitar.


LUÍSA

Porque não? Eu moro sozinha, consigo sustentar-me e sustentar uma adolescente.


Clara que até agora tinha estado a chorar, dica espantada e abraça-a.

CLARA

Obrigada, obrigada, obrigada!


LUÍSA

Mesmo assim vamos fazer figas para que nada de errado aconteça.


CLARA

Sim!


RITA

Já falaste com os teus amigos e com a professora Raquel?


CLARA

Ainda não. Nem sei como é que o irei fazer.


RITA

Se eles são teus amigos de verdade irão compreender.


INT. SALA DOS PROFESSORES TARDE

RAQUEL estava a organizar as suas coisas para poder ir para casa quando MÓNICA a interrompe.


37.

MÓNICA

Já estás de saída?


RAQUEL

Sim.


MÓNICA

Conseguiste resolver o assunto do grupinho maravilha?


RAQUEL

O assunto do Guilherme, queres tu dizer?


MÓNICA

Sim, esse.


RAQUEL

Porquê? Queres ajudar?

(diz esperançosa)


MÓNICA

Achas mesmo que eu ia ajudar aquelas pestes?

(diz com um tom de gozo)


RAQUEL

Quando queres consegues ser mesmo cruel!


MÓNICA

Por amor de Deus.


RAQUEL sai o mais rápido possível da sala.

EXT. ENTRADA DA ESCOLA TARDE

Estavam todos a despedirem-se quando CLARA decide desabafar.

CLARA

Eu acho que devíamos todos fazer queixa na polícia.


MIGUEL

Então afinal também recebeste uma mensagem?


CLARA

Sim...


38.

EMMA

Porque é que não esclarecemos as mensagens de cada um? Posso começar eu se quiserem.


Concordam todos com a cabeça.

EMMA

Então, a mensagem que eu recebi foi uma fotografia recente da minha mãe a beijar outro homem.


CLARA

Oh meu Deus, Emma.


Quando CLARA vai abraçar EMMA o resto do grupo também o faz.

Durante o abraço Guilherme decide dizer o conteúdo da sua mensagens.

GUILHERME

A minha tinha um gif da Ana a dar-me um estalo.


Ficam todos chocados com a informação menos PETRA.

PETRA

A minha era um video no qual eu estava a vender droga.


CLARA

Petra!


PETRA

Vamos apenas continuar. Miguel.


MIGUEL

O meu era um print das conversas que eu tive com o Gui a dizer que eu gostava da Emma...


EMMA

Tu gostas de mim? Espera, agora não deixa a Clara falar.


CLARA

Mandaram-me um audio de um conversa que eu tive com a professora Rita.


PETRA

Com a stora Rita?


CLARA

Sim.


39.

EMMA

Do que é que vocês estavam a falar?


CLARA

Da minha sexualidade.


MIGUEL

TU ÉS LÉSBICA!? BRUTAL!


CLARA

Brutal?


MIGUEL

Claro que é brutal, não tenho muitos amigos que façam parte da comunidade lgbt+ e agora tenho mais uma. Nós super apoiamos.


CLARA

Não pensei que fossem levar tão bem.


PETRA

Tu conheces-nos? Nós somos todos amigos há demasiado tempo para duvidares assim de nós, Clara.


CLARA

Obrigada pessoal.


Abraçam-se e vão todos para a esquadra.

INT. ESQUADRA NOITE

O grupo vai falar com um agente da autoridade e explicam a situação de cada um enquanto fazem a queixa.

INT. CASA DA CLARA DIA

Clara está a discutir com os pais. Todos a gritar, CLARA e a MÃE DE CLARA choram enquanto CLARA tem uma mala na mão e sai de casa.

INT. TRIBUNAL DIA

EMMA está em choque a responder às questões do advogado. Quando tudo acaba ela sai do tribunal de mãos dadas com MIGUEL.


40.

INT. CASA DO GUILHERME DIA

GUILHERME está a discutir com ANA e a acabar com ela.

EXT. RUA DA EMMA MANHÃ

O grupo estava a ajudar EMMA a pôr a caixas dentro do carro.

EMMA

Eu não acredito que acabámos o secundário tão bem.


GUILHERME

Eu não acredito é que foi a puta da Mónica que fez aquela porcaria toda, isso é que eu não acredito.


PETRA que estava a abraçar CLARA de lado responde.

PETRA

Não te esqueças que ela após o julgamento foi diagnosticada com psicopatia.


GUILHERME

Mesmo assim.


Continuam a arrumar as coisas.

MIGUEL

Então Clara, como é que estão as coisas em casa da professora Luísa?


LUÍSA

Estão ótimas, ela é um amor de pessoa e está a apoiar-me muito nesta fase mais complicada.


PETRA

Isso é muito bom meu amor.


PETRA beija LUÍSA.

GUILHERME

A minha percentagem de glicose até aumentou.


CLARA

Para!


MIGUEL

Tudo pronto Emma?


41.

EMMA

Sim tudo.


PETRA

Estás preparada para ir viver com o teu pai?


EMMA

Sim, as coisas com a minha mãe também já não estavam muito boas após o divórcio. De qualquer das formas a casa do meu pai fica mais perto da faculdade por isso até que é bom.


CLARA

Desde que estejas feliz.


GUILHERME

A Raquel?


MIGUEL

Está a trazer a última caixa.


RAQUEL

Falaram na minha pessoa.


RAQUEL sai do prédio com a última caixa na mão.

PETRA

Estávamos à tua espera.


RAQUEL estende os braços e vão todos abraçá-la com urgência.

FADE OUT

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Bruna Melo
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