Novas Tecnologias: O Streaming e a Morte Anunciada

Marco Candeias

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Novas Tecnologias: O Streaming e a Morte Anunciada do

Cinema


Seminário de Inglês

Turma B

Professor Doutor Carlos Ceia


 



Nos últimos dez anos, temos assistido a um crescimento exponencial de popularidade

das plataformas de streaming, tornando-se numa das principais formas de

entretenimento e de consumo de televisão. O pioneiro desta revolução foi o Youtube,

que começou como um website para partilhar vídeos caseiros, e que é atualmente

a plataforma de streaming gratuita mais popular. E enquanto o número de

subscritores destas plataformas continua a aumentar, as bilheteiras mundiais

têm vindo a perder cada vez mais dinheiro. A crença popular é de que as

plataformas de streaming como a Netflix e a Hulu são diretamente responsáveis

pelo declínio das salas de cinema. Mas serão estas plataformas mesmo culpadas?



Neste ensaio serão analisadas as características das principais plataformas

de streaming, como as respetivas origens, e os meios em que estas aplicações

são acessíveis aos consumidores. Serão analisadas

também as consequências que estas plataformas tiveram na indústria

cinematográfica, a mudança da perceção que ocorreu no publico em relação ao

cinema tradicional, e as diversas respostas que os estúdios e os proprietários

dos cinemas têm usado face a este novo panorama do audiovisual.



Em 2005, Chad Hurley, Steve Chen, e Jawed Karim fundaram o Youtube, que

tinha como principal objetivo servir como uma plataforma digital para os seus

utilizadores partilharem vídeos caseiros. Mas foi em dezembro de 2015 que esta

plataforma se tornou conhecida pelo público, quando o programa norte-americano Saturday

Night Live[1] transmitiu um

vídeo musical intitulado Lazy Sunday[2] no final do último

episódio dessa temporada. O vídeo recebeu bastante atenção após ser

transmitido, e visto que não estava a ser repetido na televisão, a única forma

de vê-lo era pesquisar no Google. O primeiro resultado era o link para ver o

vídeo no Youtube. O mundo tinha, assim, sido introduzido ao Youtube.



A atenção que o website recebeu criou uma série de problemas, dado que a rede

era limitada, e a plataforma não era lucrativa. Para além disso, a maioria dos

vídeos que eram publicados eram protegidos por direitos de autor. Muitos

analistas estavam convencidos de que o Youtube seria vítima de vários processos

por parte de estúdios de cinema, estações de televisão e editoras discográficas

que levariam a empresa à falência.



Confiante no sucesso da plataforma a longo prazo, em 2006 a Google adquiriu

o Youtube por 1,65 mil milhões de dólares em ações. Dois dias após esta

aquisição, o valor da Google na bolsa aumentou em 2 mil milhões de dólares. E,

após alguns meses, o Youtube tornou-se no segundo motor de busca mais popular

no mundo, atrás do próprio Google.



Reed Hastings e Marc Randolph fundaram a Netflix em 1997, com a ambição de

atingirem o mesmo estatuto da Amazon. Através da Netflix, os subscritores

podiam alugar um número ilimitado de filmes em DVD, um de cada vez, e chegavam

a casa em envelopes vermelhos. As cassetes VHS tinham um preço elevado na

altura, e os DVDs ainda não eram tão populares como viriam a ser. Hastings

acreditava que eventualmente seria mais conveniente alugar e ver filmes através

da internet. Por isso, em 2000, reuniu com os representantes da Blockbuster,

uma cadeia de videoclubes norte-americana, para propor que a Netflix se

tornasse no serviço de streaming da empresa por 50 milhões de dólares, oferta

que a Blockbuster recusou.



No início do século XX, estas empresas tradicionais de entretenimento não

viam a internet e os meios digitais como uma ameaça realista, e a maioria dos

americanos ainda usavam ligações de internet dial-up, que não permitia

transmitir um filme inteiro através da ligação à internet. Mas a Blockbuster

viria a declarar falência quatro anos depois, e se tivessem aceitado a proposta

de Hastings, teriam levado a Netflix à falência também. Em 2007, a Netflix

lançou o seu serviço de streaming, e em 2013 começaram a produzir conteúdo

exclusivo.



A Netflix abriu o caminho para os serviços de streaming. E assim, tiveram

início as popularmente denominadas “streaming wars”. Até ao início da década

passada, as estações de televisão estavam confortáveis com a presença da

Netflix no mercado, e vendiam os direitos de muitos dos seus programas à

plataforma de streaming. Mas um ano depois do surgimento da Netflix, as

estações decidiram investir no mercado do streaming, criando plataformas

focadas em providenciar aos espetadores os episódios mais recentes das séries

em exibição, em vez de as disponibilizar na integra. Eventualmente as estações

aperceberam-se de que o sucesso da Neflix provava que o streaming era um

mercado viável, e decidiram entrar na corrida. No entanto, como os direitos de

transmissão da maioria dos programas e filmes pertenciam à Netflix e outros

serviços de streaming como a Hulu, os estúdios e as estações tiveram de apostar

na produção de conteúdos exclusivos para atrair novos clientes. A Hulu, a

Amazon, e a Warner Bros. criaram os seus próprios serviços, seguindo esta

estratégia. Mas a verdadeira competição à Netflix surgiu no serviço da Walt

Disney Company, o Disney+, por conter no catálogo produções de estúdios e

produtoras bem-sucedidas em Hollywood e no mundo como a Pixar, a Lucasfilm, e a

Marvel Studios. O sucesso do Disney+ não se deveu exclusivamente ao catálogo,

visto que a Walt Disney Company comprou a maioria da BAMTech, um serviço de

tecnologia de streaming. Em vez de desenvolver uma empresa responsável pela

tecnologia e informática do seu serviço de streaming, a Walt Disney Company

facilmente adquiriu uma já existente, o que lhes permitiu aproximar-se da sua

competição direta mesmo sendo dos últimos serviços a entrar na corrida. Outros

serviços de streaming que à data da execução deste ensaio ainda estão por

lançar, como o Peacock, o serviço de streaming da estação norte-americana NBC,

adotarão planos alternativos à concorrência, como um plano gratuito com

anúncios, e planos “premium” sem anúncios, podendo assim seguir o exemplo da

Disney+ para ultrapassarem a maioria da concorrência ao chegarem a um número

maior de espectadores.



Em vez de disponibilizarem vários canais em pacotes para os clientes

pagarem por conteúdos que não têm interesse em ver para poderem ter acesso aos

conteúdos que de facto querem ver, a nova forma de marketing consiste em

promover os serviços de streaming com as próprias redes. Em Portugal, algumas

redes têm contratos com os serviços de streaming Netflix e HBO, que consistem

em oferecer um número de meses de acesso a estes serviços aos novos clientes

das referidas redes. Mas nos Estados Unidos da América, as estratégias de

marketing são ligeiramente diferentes, visto que muitos serviços de rede são

proprietários de alguns serviços de streaming. Quem for cliente da rede

AT&T, fica subscrito automaticamente ao HBO Max sem custos extra. Esta

integração traz um novo nível de perigo devido à falta de medidas de proteção

associadas à neutralidade de rede. A neutralidade de rede requer que os

fornecedores de acesso à internet tratem todos os dados online sem distinção,

independentemente da sua origem. Sem proteções, um fornecedor que seja

proprietário de uma empresa que tenha um serviço de streaming pode usar o seu

acesso à internet para prejudicar a competição.



Agora, em vez de pagarmos uma única fatura pelo nosso entretenimento em

casa, arriscamo-nos a entrar numa nova era em que teremos de pagar por inúmeros

serviços individuais. Em consequência desta nova realidade, a pirataria está a

aumentar cada vez mais. Isto é o resultado de um mercado que as grandes

companhias construíram para intencionalmente encurralar os clientes. E enquanto

a pirataria representa o descontentamento com o sistema, é improvável que estas

companhias mudem as suas estratégias.



A revolução digital está a transformar a indústria do entretenimento. Para

os consumidores, provavelmente nunca houve uma altura melhor para explorar

todos os géneros de música e filmes. Para os negócios que dependem de um número

consistente de clientes, como os cinemas, estes são tempos assustadores. Devido

à constante inflação, os bilhetes de cinema têm ficado cada vez mais caros a

cada ano que passa. Os proprietários de cinemas sentem a pressão de competirem

com uma audiência fraturada. Outrora, o cinema era o destino de fim de semana

de muitas pessoas, mas atualmente preferem ficar em casa. Vários analistas

preveem a eventual morte das salas de cinema como as conhecemos, e apontam como

fatores adicionais os espectadores que usam o telemóvel durante o filme ou que

incomodam as restantes pessoas, a tecnologia 3D, e o constante aumento dos

preços dos bilhetes. É estimado que, pelo menos nos Estados Unidos, cerca de

60% do dinheiro que os cinemas faturam com um determinado filme vai para os

estúdios, e os cinemas ficam com os 40% restantes. Mas desses 40%, a maioria

serve para pagar os salários aos empregados, a renda dos espaços, gastos de

manutenção e mais, sobrando apenas cerca de 4% dos lucros para o cinema. Com a

constante inflação nos preços dos bilhetes de cinema, os espectadores começaram

a limitar as idas ao cinema, ou pararam de ir completamente.



Para se adaptarem a esta nova realidade, os cinemas encontram novas medidas

para compensarem a quebra nos lucros. Alguns cinemas implementaram promoções

que incluem refeições durante o filme, permitindo aos espectadores pressionar

um botão que chama um empregado. Em alguns cinemas as opções estendem-se até às

bebidas alcoólicas. Outra alternativa foi experimentada em 2013, aquando do

lançamento do filme World War Z[3] (2013), quando

alguns cinemas venderam bilhetes premium a 50 dólares que permitiam aos

espectadores assistir ao filme antes do lançamento oficial, terem uma cópia

digital do filme, um póster, óculos 3D, e pipocas. Os cinemas que aderiram a

esta experiência e outras semelhantes não obtiveram imensos lucros, mas ao

providenciarem uma experiência única aos espectadores, podem atrair novos

clientes. Para contrastar com os cinemas mais antigos com cadeiras mais

desconfortáveis, alguns cinemas mais modernos oferecem uma experiência mais

confortável e luxuosa, com decoração clássica que honra o misticismo de

Hollywood. Para além disso, incluem poltronas reclináveis, almofadas, e mantas,

adaptando assim a experiência cinematográfica a um serão em casa.



Uma companhia sul-coreana intitulada CJ 4DPLEX criou a experiência

cinematográfica 4D. Nos cinemas 4DX, as cadeiras balançam e abanam durante

perseguições de automóveis, são emitidos jatos de fumo e vento durante uma cena

de tempestade. Os cheiros também são usados durante partes relevantes do filme.

Nos Estados Unidos, esta experiência acrescenta cerca de 6 dólares ao preço dos

bilhetes, o que é compreensível quando consideramos o investimento capital dos

cinemas que aderem a esta tecnologia. Estima-se que adaptar os cinemas à

tecnologia 4DX custe cerca de 700,000 dólares.



Durante anos, Hollywood tem apostado cada vez mais dinheiro em blockbusters

e filmes pertencentes a franchises previamente estabelecidos, fenómeno este que

tem perpetuado um ciclo de sequelas e filmes de super-heróis que

consistentemente atraem as mesmas multidões, ano após ano. Vários realizadores

da “velha guarda”, como Steven Spielberg, afirmam que é cada vez mais difícil

convencer os estúdios a produzir filmes com histórias novas, e que é provável

que a indústria cinematográfica nunca mais seja a mesma. Mas, se e quando

Hollywood voltar a aprender que uma boa história vale mais do que efeitos

especiais, os cinemas tradicionais beneficiarão de várias maneiras, e o público

também. Os espectadores teriam novas razões para voltarem ao cinema em vez de

ficarem em casa sozinhos a ver produções com orçamentos mais baixos, mas com

mais qualidade. Juntarmo-nos com outras pessoas numa sala para vermos um filme

em conjunto é uma experiência psicologicamente benéfica. Mais do que avanços

tecnológicos, é uma boa história que torna o cinema numa experiência tão

magnética.



Ainda no tópico das tecnologias, a proliferação da rede 5G e a integração

de novas tecnologias e de pré-existentes transformará para sempre a experiência

cinematográfica. Em termos de velocidades de download, o visionamento de filmes

e vídeos será mais fiável, visto que é expectável que a rede 5G seja vinte

vezes mais rápida que a sua antecessora 4G. O sinal da nova rede também

penetrará mais facilmente através das paredes dos edifícios, permitindo

conexões mais rápidas em casa, e abrangerá áreas mais remotas, permitindo a um

acesso à rede mais estável durante viagens de comboio, por exemplo. Com estes

melhoramentos, a maneira como consumimos filmes e séries irá mudar também. Como

já tem vindo a acontecer nos últimos anos, as vantagens da rede 5G irá levar ao

aumento da população que desiste de ter uma subscrição de televisão por cabo.



A teoria do aparelho, explorada na obra de Jean-Louis Baudry[4] e derivada

da teoria cinemática Marxista, da semiótica e da psicanálise, surgiu na década

de 1970. Esta teoria defendia que o cinema é ideológico por natureza porque os

seus mecanismos de representação, a câmara e a edição, são ideológicos, e

porque os filmes são feitos para representar a realidade. A posição central do

espectador na perspetiva da composição também é ideológica, porque é uma

realidade reproduzida e a experiência cinemática afeta o espectador. Segundo o

aspeto marxista da teoria, a ideia é de que o espectador passivo não consegue

distinguir o mundo do cinema e o mundo real. Este espectador identifica-se com

as personagens no ecrã, tornando-se suscetível à posição ideológica

representada. Baudry compara a experiência cinematográfica a um sonho, usando

como exemplo a sala escura e a inatividade e passividade das duas experiências.

Baudry argumenta que, dado que o espectador não é distraído pela luz exterior e

o barulho, devido à natureza do cinema tradicional, consegue experienciar um

filme como se fosse uma realidade e se estivesse a vivenciar os eventos ele

próprio.



Esta teoria foi descartada pelos estudiosos ao longo dos anos, e atualmente

é irrelevante nos estudos de cinema. Num mundo onde os espectadores podem ter a

melhor tecnologia de som e imagem em casa, ou podem ter acesso a filmes no

computador ou telemóvel, a valorização da sala de cinema não mantém a sua

relevância. E um dos principais contra-argumentos vem de Jan Simons[5],

que defende que muitas das novidades da nova era digital não são completamente

novas. Um dos seus exemplos é o Sensorama, uma máquina que foi imaginada na

década de 1950 inspirada na perspetiva renascentista de representar a realidade

o melhor possível, e que consistia num ambiente imersivo que comunicaria com

todos os sentidos do corpo humano. A tecnologia da Realidade Virtual é, assim,

uma variação deste conceito. Seguindo esta linha de pensamento, a sala de

cinema pode ter sido considerada outrora como a derradeira forma de

experienciar a arte do cinema, mas a tecnologia evoluiu, e tendo os meios

financeiros, é possível recriar a experiência em casa. Para muitos, esta

recriação nem é relevante, e escolhem ver filmes em telemóveis ou computadores.



Muitas personalidades em Hollywood já expressaram as suas opiniões em relação

a esta revolução do cinema. Darren Aronofsky, realizador de filmes como Black

Swan[6] (2010) ou Noah[7] (2014), reconhece

que não pode ignorar a porção dos espectadores que consome cinema através dos

dispositivos móveis. Aronofsky admite, no livro de Tom Roston intitulado I

Lost it at The Video Store: A Filmmaker’s Oral History of a Vanished Era[8] (2015), que, desde

2014, tem usado em todas as suas produções uma proporção da imagem diferente da

que usava nos seus filmes anteriormente, mais apropriada aos ecrãs pequenos. No

seu último filme, Mother![9] (2017), Aronofsky

usa muitos close-ups (planos próximos) e planos muito aproximados que fazem com

que o espectador se sinta claustrofóbico, e que facilitam o visionamento em

telemóveis ou computadores. Aronofsky também afirma que o seu diretor de

fotografia reviu o filme num smartphone para analisar como é que é a perspetiva

de alguém que vê o filme num telemóvel, podendo assim ajustar as cores e o

brilho para tornar a experiência mais apropriada a esses meios. Criou também

uma versão com uma mistura de som diferente da versão do cinema. Depois da

equipa ter feito a mistura de som para os cinemas, fizeram uma nova mistura de

som mais limitada, mas que recaptura a qualidade o melhor possível.



Do lado mais defensivo na indústria, Christopher Nolan critica as

plataformas de streaming por não apoiarem mais as salas de cinema. No que toca

à Netflix, os filmes originais da plataforma estreiam online e nas salas de

cinema no mesmo dia (em Portugal, os filmes originais da Netflix não têm

direito a exibição nos cinemas). Atualmente, a maior parte dos consumidores irá

preferir ver o filme em casa em vez de se deslocarem a um cinema. A Netflix

consegue atrair talentos como Martin Scorcese, David Ayer e Bong Joon Ho ao

oferecer os grandes orçamentos e a liberdade artística que apenas alguns

realizadores conseguem ter atualmente nos grandes estúdios de Hollywood. Mesmo

assim, Christopher Nolan afirma que nunca irá trabalhar com esta plataforma, e

que continuará a fazer filmes para o grande ecrã.



Um dos principais argumentos contra a perspectiva de Christopher Nolan veio

da também realizadora Ava Duvernay, que valoriza a importância das plataformas

de streaming em zonas onde não existem cinemas. A questão do acesso ao cinema

em zonas mais pobres ou isoladas das grandes cidades é um dos principais pontos

a favor de plataformas como a Netflix, que ajudam a difundir a cultura, facilitando

o acesso de muitas mais pessoas a um grande catálogo de filmes (desde que

tenham acesso à internet).



O derradeiro teste ao streaming veio em 2020, quando os cinemas começaram a

perder dinheiro devido à pandemia do COVID-19, que à data da execução do

presente ensaio, ainda está ativa. Os filmes de grande orçamento já estavam a faturar

bastante abaixo das expectativas traçadas pelos estúdios devido ao encerramento

dos cinemas em muitos países da Ásia, e quando a pandemia chegou ao Ocidente,

os estúdios encontraram-se numa posição complicada ao verem as salas de cinema

fecharem. A primeira solução provisória que os estúdios escolheram para não

continuarem a perder dinheiro foi colocar os filmes que estavam em exibição nas

salas de cinema disponíveis para compra ou aluguer através das plataformas

digitais como o iTunes ou o Google Play. Quanto aos filmes que ainda haveriam

de estrear, a esmagadora maioria foi adiada vários meses ou até um ano, fora

aqueles que foram adiados indefinidamente. Outros filmes foram vendidos pelos

estúdios a plataformas de streaming, como é o caso de The Lovebirds[10] (2020), ou serão

colocados nas plataformas de streaming pertencentes a cada estúdio.



A decisão que viria a revelar-se mais controversa, surpreendentemente, veio

da Universal Studios, que decidiu lançar o filme Trolls: World Tour[11] (2020), a sequela

do filme Trolls[12] (2016), diretamente

para alugar nas plataformas digitais, saltando completamente o lançamento nas

salas de cinema. O principal motivo por detrás desta decisão foi o facto de a

campanha de marketing para o filme estar praticamente completa na altura em que

os cinemas fecharam no Ocidente. E ao lançarem já o filme, evitavam gastar

dezenas de milhões de dólares gastos em publicidade em produtos alimentares,

brinquedos e variadas formas de publicidade, que posteriormente teriam que

voltar a gastar para promover o filme de novo. No dia 10 de abril a Universal

lançou o filme para aluguer nas plataformas digitais. O filme só teve exibição

no cinema na Rússia, Singapura e Malásia. Seguindo esta decisão, a Warner Bros

decidiu seguir as pisadas e cancelou o lançamento de Scoob![13] (2020) nos

cinemas, passando o seu lançamento em exclusivo nas plataformas digitais.



Três semanas após o lançamento digital de Trolls: World Tour (2020),

a Universal declarou ter faturado cerca de 100 milhões de dólares. Como nestas

condições a Universal não teve de pagar uma taxa aos cinemas, mas sim uma taxa

consideravelmente mais baixa às empresas que gerem as plataformas digitais de aluguer,

o estúdio conseguiu, neste período de exibição, lucrar mais com este filme do

que com o original durante toda a sua exibição nos cinemas. Estes lucros

levaram o presidente da Universal Studios a declarar que muito provavelmente

irá adotar este método de lançamento de filmes no futuro pós-COVID-19. Perante

estas declarações, a Amc Theatres anunciou que, como vingança, não iria exibir

mais nenhum filme que fosse distribuído pela Universal. Até ao momento da

elaboração deste ensaio, outras cadeias de cinemas internacionais juntaram-se a

este boicote. Esta decisão de boicotar a exibição dos filmes da Universal

implica que estes cinemas irão perder a oportunidade de exibir enormes

blockbusters como os filmes da saga Velocidade Furiosa ou Mundo

Jurássico. E vale a pena referir que a Amc, que foi a primeira cadeia de

cinemas a tomar esta decisão, está na iminência de declarar falência se as

salas de cinema não abrirem em breve.



A pergunta impõe-se: quem tem razão no meio desta batalha? Será o estúdio

por pensar primeiro no bem-estar financeiro da companhia? Serão os cinemas, que

já estavam ameaçados pelas novas tecnologias antes da pandemia, e que veem o

futuro cada vez mais negro? Ambos os lados têm uma defesa sólida. Mas neste

caso é bastante provável que a Universal se tenha precipitado ao anunciar que

iria adotar este método de lançamento no futuro. Não podemos esquecer que o

período da pandemia é excecional. O fenómeno que a Universal teve com Trolls:

World Tour[14]

(2020) não pode, nem deve servir de exemplo e base para o futuro da indústria

cinematográfica, por vários fatores. Primeiro, o filme teve direito a uma

campanha de marketing de um filme com lançamento no cinema. Os filmes que vão diretamente

para as plataformas digitais normalmente não têm uma campanha de marketing tão

intensa, e em muitos casos resume-se apenas a cartazes na rua e anúncios no

Youtube. Estariam os estúdios dispostos a gastar dezenas de milhões de dólares

em campanhas para lançamentos digitais? Não sabemos. Segundo, o filme referido

faz parte de uma marca mundialmente conhecida de brinquedos, para além de ser a

sequela de um filme de animação bem-sucedido. Podemos assim concluir que é

demasiado cedo para sabermos ao certo se este modelo de lançamento será viável

a longo prazo, ou se a Universal simplesmente teve sorte.



O streaming representa o futuro da indústria do entretenimento, e veio para

ficar. À medida que a tecnologia procura trazer cada vez mais conforto aos

consumidores, consequentemente o entretenimento também está cada vez mais

acessível, literalmente na ponta dos nossos dedos. O que resta ver é até quando

os cinemas aguentarão com os moldes de negócio que têm atualmente, e de que

modo tentarão adaptar-se à nova realidade nos próximos anos. Nesta guerra entre

os cinemas e o streaming, nem o consumidor está livre das consequências.



 



Referências



ALEXANDER, Julia. The streaming wars are finally

beginning, but it’s more of a polite quarrel than an all-out war. Disponível em:

https://www.theverge.com/2020/2/6/21126156/streaming-wars-disney-plus-netflix-wall-street-subscribers-hbo-max-peacock. Consultado

em 25 de março de 2020.



BAUDRY, Jean-Louis. Il Dispositivo. Cinema, Media, Soggettività. Itália:

La Scuola, 2017.



MCFADDEN, Christopher, The Fascinating History of

Netflix. Disponível em: https://interestingengineering.com/the-fascinating-history-of-netflix. Consultado

em 30 de março de 2020.



O’MALLEY, James. 5G and film: how will the tech change

how we consume movies?. Disponível em: https://www.techradar.com/news/5g-and-film-how-will-the-tech-change-how-we-consume-movies. Consultado

em 15 de maio de 2020.



ROSTON, Tom. I Lost It at the Video Store [Expanded

Edition]: A Filmmakers' Oral History of a Vanished Era. 2ª Edição. Nova

Iorque: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2017.



SIMONS, Jan. Interface en cyberspace: inleiding in

de nieuwe media. Países Baixos: 1ª Edição: Amsterdam University Press,

2002.



ZIPIN, Dina. How Exactly Do Movies Make Money?.

Disponível

em: https://www.investopedia.com/articles/investing/093015/how-exactly-do-movies-make-money.asp. Consultado

em 17 de abril de 2020.



 












[1] Saturday

Night Live, NBC Universal Television, 1975-.







[2] Lazy

Sunday, NBC Universal Television, 2005.







[3] World

War Z, Paramount Pictures, 2013.







[4] Jean-Louis

Baudry, Il dispositivo. Cinema, Media, Soggettività,

Itália: 1974.







[5] Jan Simons, Interface

en cyberspace: inleiding in de nieuwe media. Países Baixos: 2002







[6] Black

Swan, Fox Searchlight Pictures, 2010.







[7] Noah, Paramount

Pictures, 2014.







[8] Tom Roston, I

Lost it at The Video Store: A Filmmaker’s Oral History of a Vanished Era,

Nova Iorque: CreateSpace Independent Publishing Platform.







[9] Mother!,

Paramount Pictures, 2017.







[10] The

Lovebirds, Netflix, 2020.







[11] Trolls:

World Tour, Universal Studios, 2020.







[12] Trolls,

Universal Studios, 2016.







[13] Scoob!,

Warner Bros. Pictures, 2020.







[14] Trolls:

World Tour, Universal Studios, 2020.






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