Penso que todas as marcas pessoais, de uma maneira geral, surgem em
razão da nossa inspiração e da motivação em criar algo com a nossa
própria voz: tal como uma oliveira que queremos plantar pequenina,
numa qualquer planície solitária, onde apenas existe o tempo, o sol e o
vento.
Afinal, quem é que não gosta de ter algo seu?
Num mundo perdido em ruído, desconexão, injustiças e atribulações,
sempre me fez sentido criar um lugar meu, uma espécie de ninho de
pássaro onde podia escrever e publicar a minha visão sobre a vida.
A Pássaro Amarelo, enquanto marca pessoal de escrita e de
comunicação, teve o seu parto, há muitos anos, em Marvão: uma vila
alentejana situada no topo da Serra do Sapoio, a uma altitude de 860
metros. Terras raianas do Alentejo, bem acomodadas à Serra de São
Mamede.
Digo que a marca nasceu aqui, porque Marvão tem o virtuosismo -
sempre que por lá passo - de me marcar intensamente. Há qualquer
coisa de clareza que este lugar nos proporciona; uma espécie de
clarividência sobre quem somos e qual o caminho que devemos
percorrer. Uma luz ao fundo do túnel.
Foi nesses intermináveis roteiros por Marvão, que comecei a pensar
numa marca pessoal que satisfizesse os requisitos de um negócio (e de
uma vida) para a escrita. Foram precisas décadas para acertar agulhas
e entender o que eu queria. Na realidade, o que desejava mesmo, era
abrir as janelas em Marvão e gritar alto:
- Olá Mundo!
Marvão tem apenas cem habitantes permanentes e devido à sua
geografia escarpada, solitária, não abundam os empregos. Por isso, só
existia uma forma de eu ser livre aqui: criar um website, uma marca e
escrever!
Uma marca pessoal resulta sempre de um trabalho laborioso de estudo
do nosso interior. É a libertação de uma visão que não encontra
ressonância noutros lugares do mundo: é algo só nosso.
Corria o ano de 1990 e eu já andava atrelada aos meus pais e à minha
irmã, correndo os caminhos desta raia alentejana. O ponto de encontro
à noite, naquelas noites de verão, eram sempre as ameias do castelo de
Marvão que continua, ainda hoje, a prestar homenagem ao mais
maravilhoso pôr-do-sol nacional.
Conheço bem Marvão, mas não todos os seus recantos, o que é algo
que me fascina: sou conhecedora desta terra há quase quarenta anos,
mas sou sempre surpreendida pelos seus recantos secretos.
Sempre que lá vou, descubro mais uma rua e uma casa que nunca
tinha observado com atenção. Aconteceu isso da última vez que lá fui,
no verão de 2023.
Voltei lá agora, curiosamente no dia da Liberdade: 25 de Abril. Retomei
o meu caminho de encontro com as águias, o sol e o castelo que
sempre me acompanharam ao longo da vida. Por isso escrevo estas
novas crónicas: finalmente, tenho um ninho só meu.
Marvão é uma experiência humana, emocional e espiritualmente
significativa: se alguém acredita em Deus, este é o lugar certo para O
encontrar e conversar com Ele. Apenas no silêncio absoluto e no
mistério da linguagem da Natureza é que podemos encontrar um
pedaço desta transcendência divina. Aqui sinto-me entendida,
acarinhada, como se uma grande mão cheia de luz, limpasse todas as
minhas lágrimas.
Neste regresso a Marvão, a 25 de abril de 2025, encontrei novos
espaços que ajudam a construir uma comunidade mais próxima: é o
caso do Café do Contrabando que nos oferece um bom acolhimento
para o pequeno-almoço.
Ao longe, as ameias do castelo anunciam o festival de música que irá
acontecer durante o mês de julho. Um verdadeiro acontecimento
musical icónico, que junta músicos de todos os lados do mundo. É
realmente assombroso assistir a um concerto à noite no pátio do
castelo, enquanto as águias e os pássaros sobrevoam as estrelas. É
mais do que uma experiência humana: é uma experiência espiritual.
E o que dizer do Restaurante Mil-Homens, lugar de referência na
gastronomia neste pedaço do país? À mesa encontramos a galinha
frita, o cabrito e os típicos petiscos alentejanos.
Vagueei por aqui quando era criança e jovem.
Por isso, como tudo aquilo que nos marca nestas etapas da vida, era
quase inevitável que Marvão me marcasse ao ponto de ter servido de
inspiração para a criação da minha marca pessoal - Pássaro Amarelo.
Marvão: o início de uma marca pessoal