Marvão: o início de uma marca pessoal

Maria Inês Rebelo

109
0

Penso que todas as marcas pessoais, de uma maneira geral, surgem em

razão da nossa inspiração e da motivação em criar algo com a nossa

própria voz: tal como uma oliveira que queremos plantar pequenina,

numa qualquer planície solitária, onde apenas existe o tempo, o sol e o

vento.

Afinal, quem é que não gosta de ter algo seu?

Num mundo perdido em ruído, desconexão, injustiças e atribulações,

sempre me fez sentido criar um lugar meu, uma espécie de ninho de

pássaro onde podia escrever e publicar a minha visão sobre a vida.

A Pássaro Amarelo, enquanto marca pessoal de escrita e de

comunicação, teve o seu parto, há muitos anos, em Marvão: uma vila

alentejana situada no topo da Serra do Sapoio, a uma altitude de 860

metros. Terras raianas do Alentejo, bem acomodadas à Serra de São

Mamede.

Digo que a marca nasceu aqui, porque Marvão tem o virtuosismo -

sempre que por lá passo - de me marcar intensamente. Há qualquer

coisa de clareza que este lugar nos proporciona; uma espécie de

clarividência sobre quem somos e qual o caminho que devemos

percorrer. Uma luz ao fundo do túnel.

Foi nesses intermináveis roteiros por Marvão, que comecei a pensar

numa marca pessoal que satisfizesse os requisitos de um negócio (e de

uma vida) para a escrita. Foram precisas décadas para acertar agulhas

e entender o que eu queria. Na realidade, o que desejava mesmo, era

abrir as janelas em Marvão e gritar alto:

- Olá Mundo!

Marvão tem apenas cem habitantes permanentes e devido à sua

geografia escarpada, solitária, não abundam os empregos. Por isso, só

existia uma forma de eu ser livre aqui: criar um website, uma marca e

escrever!

Uma marca pessoal resulta sempre de um trabalho laborioso de estudo

do nosso interior. É a libertação de uma visão que não encontra

ressonância noutros lugares do mundo: é algo só nosso.

Corria o ano de 1990 e eu já andava atrelada aos meus pais e à minha

irmã, correndo os caminhos desta raia alentejana. O ponto de encontro

à noite, naquelas noites de verão, eram sempre as ameias do castelo de

Marvão que continua, ainda hoje, a prestar homenagem ao mais

maravilhoso pôr-do-sol nacional.

Conheço bem Marvão, mas não todos os seus recantos, o que é algo

que me fascina: sou conhecedora desta terra há quase quarenta anos,

mas sou sempre surpreendida pelos seus recantos secretos.

Sempre que lá vou, descubro mais uma rua e uma casa que nunca

tinha observado com atenção. Aconteceu isso da última vez que lá fui,

no verão de 2023.

Voltei lá agora, curiosamente no dia da Liberdade: 25 de Abril. Retomei

o meu caminho de encontro com as águias, o sol e o castelo que

sempre me acompanharam ao longo da vida. Por isso escrevo estas

novas crónicas: finalmente, tenho um ninho só meu.

Marvão é uma experiência humana, emocional e espiritualmente

significativa: se alguém acredita em Deus, este é o lugar certo para O

encontrar e conversar com Ele. Apenas no silêncio absoluto e no

mistério da linguagem da Natureza é que podemos encontrar um

pedaço desta transcendência divina. Aqui sinto-me entendida,

acarinhada, como se uma grande mão cheia de luz, limpasse todas as

minhas lágrimas.

Neste regresso a Marvão, a 25 de abril de 2025, encontrei novos

espaços que ajudam a construir uma comunidade mais próxima: é o

caso do Café do Contrabando que nos oferece um bom acolhimento

para o pequeno-almoço.

Ao longe, as ameias do castelo anunciam o festival de música que irá

acontecer durante o mês de julho. Um verdadeiro acontecimento

musical icónico, que junta músicos de todos os lados do mundo. É

realmente assombroso assistir a um concerto à noite no pátio do

castelo, enquanto as águias e os pássaros sobrevoam as estrelas. É

mais do que uma experiência humana: é uma experiência espiritual.

E o que dizer do Restaurante Mil-Homens, lugar de referência na

gastronomia neste pedaço do país? À mesa encontramos a galinha

frita, o cabrito e os típicos petiscos alentejanos.

Vagueei por aqui quando era criança e jovem.

Por isso, como tudo aquilo que nos marca nestas etapas da vida, era

quase inevitável que Marvão me marcasse ao ponto de ter servido de

inspiração para a criação da minha marca pessoal - Pássaro Amarelo.

Marvão: o início de uma marca pessoal

109
0
0
Message