A Carta
A palavra “urgente” em letras cor de sangue levou-lhe imediatamente à boca um gosto amargo e demasiadamente familiar para ser ignorado. E antes que os olhares agudos dos outros transeuntes o picassem, já o pedaço de papel estava na sua mão; resgatado da calçada onde jazia num
desespero calado, até há uns meros segundos antes.
A gravidade da correspondência pesava-lhe no peito ainda que a meia folha mal se desse a conhecer aos seus dedos. A angústia do destinatário bem evidente nos rasgões imperfeitos, desferidos com as mãos mas, claramente, orientados pelo coração.
Que estranho era que ele tivesse tomado para si as dores de um desconhecido de quem apenas sabia ter um sobrenome terminado em “eira” – as únicas letras que sobreviveram ao ataque.
Era, no entanto, evidente que o Pereira iria perder a sua casa. Talvez levando consigo para a rua a senhora Oliveira e os elementos mais novos da família Vieira. Provavelmente, destruindo em segundos – e com um negócio pensado apenas com a carteira – tudo aquilo que o clã Nogueira levou
anos a construir.
O que é que tu fizeste da tua vida, Castanheira?
Deixaste que o desejo por um carro topo de gama te moldasse o juízo e quando, finalmente, conseguiste aquelas férias de sonho já não te chegavam os relógios de marca. Ou os jantares nos restaurantes da moda, regados com vinho ao preço do ouro e acompanhados por amigos comprados nos saldos.
Amigos que perdeste ainda antes da casa. Ainda antes de ela se ter ido embora com os teus filhos e um pedaço do teu peito…
Sozinho. Era assim que o homem se sentia e foi assim que ele ficou, agarrado a uma carta que não era dele, rasgada por outro, mas que contava tão bem a sua história.
A Carta
A história de um homem que perdeu tudo após receber uma carta.