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Chegou o dia de falarmos sobre dinheiro! Capricorniana que sou, é um assunto que me interessa bastante (e deveria interessar a todos nós, na verdade). Mas não é sobre qualquer dinheiro, é sobre como definir o valor/hora do trabalho cultural e criativo.
Uma das principais críticas que faço em relação à educação na área da cultura e criatividade é que grande parte das vezes são ensinadas técnicas para o desenvolvimento daquele “talento”, mas nunca em como transformá-lo em trabalho, como vendê-lo. Esse é um dos fundamentos que enquadra, do meu ponto de vista, a arte, a cultura e a criatividade como hobbie e não como algo a ser “levado a sério”, como matéria digna de direitos trabalhistas, pesquisas e investimento.
Para quem, assim como eu, decidiu viver de arte (nos primeiros anos da faculdade eu ainda acreditava que seria atriz para o resto da vida), quando se viu no mercado de trabalho sem nenhum conhecimento financeiro, definitivamente se sentiu perdido(a) e “se vendeu” por muito pouco. Esse parece o início daquelas histórias que os artistas famosos contam sobre os primeiros shows ou espetáculos a R$30 para 7 pessoas. Sabendo de antemão a trajetória desse artista que hoje recebe centenas de milhares até parece uma história de superação (e assim nos é contada), mas para mim nunca soou dessa forma. Infelizmente, numa sociedade em que se mede o sucesso e o reconhecimento através da quantidade de dinheiro, esse tipo de situação, do meu ponto de vista, desvaloriza o trabalho cultural e criativo. Se outros profissionais em início de carreira chegam a receber salários minimamente dignos, por que os(as) trabalhadores(as) da cultura e criativos(as) precisam de segundos e terceiros empregos para garantir minimamente a sua sobrevivência?
Por mais que o “talento” possa ser algo “inato”, todo(a) trabalhador(a) da cultura e criativo(a) (e digo isso sem o medo da generalização) precisou estudar muito e investir muito dinheiro e tempo para se tornar o profissional que é. Geralmente, são anos de investigação profunda, de descoberta e de lapidação das habilidades. Arrisco-me a dizer, ainda que sem nenhum estudo realizado, que o(a) trabalhador(a) da cultura, por exemplo, é um(a) dos(as) que mais estuda e se aprimora ao longo da vida. Ora, se a matéria de estudo e trabalho da cultura são as pessoas, a relação entre elas e a vida em geral, todos eles em constante mudança, é “natural” que a cada novo dia surjam novas formas de perceber, compreender e lidar com a realidade. A cultura que consumimos (isto é, as músicas, os filmes, os espetáculos, os livros etc.) é reflexo, muitas vezes crítico, daquilo que experienciamos (ou seja, do nosso tempo presente), portanto a mudança é a única constante e quem estagna tende a “morrer” em termos de trabalho. Hoje em dia é quase óbvia essa afirmação, em linhas gerais, para qualquer trabalhador(a), independente se é da cultura e/ou criativo(a), mas há pelo menos 4 décadas, não o era. Quem aqui conhece pessoas que há muitos anos exercem a mesma profissão e fazem exatamente o mesmo trabalho todos os dias? Pois bem, ouso em dizer que não é um(a) trabalhador(a) da cultura/criativo(a).
No entanto, não só de trevas é que se vive. A “marginalização” da cultura, da arte e da criatividade em termos laborais possibilitou-nos valorar a mão-de-obra e o produto/serviço “livre” das regras do mercado de trabalho e do piso salarial (tanto para o bem quanto para o mal, como costumo dizer). Contudo, a liberdade pode ser traiçoeira. Não ter parâmetros para comparações faz com tudo seja possível e impossível ao mesmo tempo e aí a tendência é cairmos sempre no erro de trabalhar para sobreviver, ou seja, para pagar as contas básicas.
Pensando nisso, durante o período em que participei do programa StartUP Voucher de apoio ao empreendedorismo, desenvolvi uma planilha (ou folha de cálculo) de apoio à definição do valor/hora do trabalho cultural e criativo e que, hoje, possibilitou a escrita desse artigo e a listagem de 4 dicas para estar atento(a) no momento de definição do seu valor/hora.
1. Money
Penso que o primeiro passo para definir o valor/hora do trabalho cultural e criativo seja melhorar a relação que temos com dinheiro e finanças. Não deveria ser vergonha cobrar por aquilo que nos dá prazer fazer e nos motiva ou que precisou de poucas horas para ser feito ou então que não necessitou de tanto esforço, porque é uma habilidade “natural”. Por mais que não tenhamos total consciência, muitas vezes nossas habilidades “naturais” são fruto de um longo processo que se confunde com o nosso processo de crescimento e amadurecimento enquanto ser humano. O que, por vezes, serviu para nos ajudar a lidar com a realidade ao longo da vida pode ser, hoje, fonte de renda para a nossa sobrevivência e está tudo bem! Não é e nem deveria ser menos valioso do que qualquer outro tipo de trabalho. Portanto, ao valorizar a si e à sua trajetória, saiba valorar-se!
2. First things first
Como já dito antes, geralmente o valor cobrado leva em consideração apenas os custos para garantir a sobrevivência básica e o material utilizado para não haver prejuízo e SÓ! Se o(a) trabalhador(a) da cultura/criativo(a) é um dos que mais investe na sua educação, onde está o retorno deste investimento? Certamente não estará no aluguel e nas contas de luz e de água. Portanto, a primeira coisa a se fazer é enumerar TODOS os gastos com formações (graduação, pós-graduação, cursos técnicos, cursos livres, línguas etc.), experiências (intercâmbios, por exemplo) e a compra de equipamentos que estão estritamente ligados à atividade profissional exercida. A cada trabalho, uma percentagem desse valor deve ser paga para que em x tempo todo o investimento realizado tenha retornado e possa ser reinvestido. No meu caso, como fiz um grande investimento no mestrado em Portugal, optei pelo retorno de 1% a cada novo trabalho, porque mais do que isso seria irreal.
3. Cotidiano
Não apenas a sobrevivência básica deve ser computada, mas todos os gastos que são feitos mensalmente (a título individual ou no agregado familiar): comunicação, contabilidade e impostos, lazer, poupança (porque pensar no futuro é importante!), saúde, segurança e seguros, transportes etc., além dos gastos, também mensais, em relação ao próprio negócio: aluguel, água, luz, internet, contabilidade e impostos, segurança e seguros, cash-flow (dinheiro de caixa/fundo de maneio), site, e-mail, impulsionamento de redes sociais, programas e softwares, embalagens e distribuição etc.
TUDO deve ser posto na ponta do lápis, porque senão estaremos sempre às voltas a sentir que nunca há dinheiro suficiente. E nunca haverá, se não fizermos o levantamento de todo e qualquer custo que nos faz ser quem somos, aptos a desenvolver o trabalho que desenvolvemos.
4. Quanto tempo
Até o momento temos feito cálculos com valores mensais, portanto como calcular o valor/hora? Para quem tem horários de trabalho definidos, é só dividir a quantidade de horas mensais pelo valor da percentagem dos investimentos + custo de vida mensal + custo de trabalho mensal. No entanto, para quem não os têm definidos, existem, do meu ponto de vista, duas alternativas: ou considerar as 8 horas de trabalho x 5 dias na semana tradicionais (ainda que não seja exatamente assim) ou realizar um estudo hipotético de quantas horas serão necessárias para concluir aquele trabalho no período de 1 mês. No cenário da segunda alternativa é preciso saber previamente quantas horas você demora para fazer cada função que integra esse trabalho. Por exemplo: se lhe foi encomendado um quadro, é preciso saber quantas horas são necessárias para a elaboração do croqui (ou do esboço), a compra do material, a preparação da tela e das tintas, o rascunho, a primeira camada, a segunda camada.... enfim, cada pedacinho do processo de pintura de um quadro, que poderia ser uma a pintura de um mural, a confecção de um bolo, a costura de um vestido etc., tendo em vista a produção de objetos/produtos. Mesmo no caso de um serviço, cada etapa do processo deve ser considerada como tempo a ser pago, mesmo que seja o tempo de estudo de referências para a concretização do trabalho.
5. Bónus: Taxes
Não se esqueça de considerar todas as taxas que devem ser pagas ao Governo de acordo com o seu contrato de trabalho e os valores pagos aos Sindicados ou Ordens que o(a) habilitam a exercitar a sua profissão. Em relação às taxas, em Portugal se você tiver um contrato de prestação de serviços a Recibos Verdes e já estiver no segundo ano de emissão dos recibos, saiba que trimestralmente pagará IVA referente à sua atividade, caso o valor anual ultrapasse o teto do ordenado mínimo, e a cada recibo emitido contribuirá com x% para a Segurança Social. Já no Brasil, se você for MEI terá de pagar mensalmente o DAS que já inclui a contribuição para a Previdência Social (INSS), porém nos valores mínimos. Caso sinta necessidade de complementar a contribuição (e inclusive, recomendo, uma vez que é esse valor pago à Previdência que auxiliará a determinar o montante a receber de aposentadoria), terá de pagar mais um tanto para a Previdência.
Como não sou especialista nessa área e confesso que me faz tanta confusão quanto a qualquer outra pessoa, sugiro que faça uma pesquisa e esteja ciente de todos os descontos que o seu valor/hora sofrerá, porque isso pode fazer uma diferença brutal no final do mês! Os que aqui foram mencionados são os que lido/lidava pessoalmente, portanto a depender da sua situação e da sua localidade, pode ser que haja mais taxas ou menos taxas a serem pagas. Não se pego de surpresa por preguiça de pesquisar, porque se não houver o controle dessa situação, pode ser que algum(ns) custo(s) básico(s) não seja(m) pago(s) e que você se veja à rasca/no sufoco para pagar tudo.
Sou convicta de que todo esforço deva ser remunerado, principalmente na área da cultura e da criatividade que vive constantemente na precariedade. Acredito que também precisa partir de nós a iniciativa de nos educarmos financeiramente, de sabermos explicar o porquê nossos produtos e serviços terem x preço na tentativa de sensibilizar nossos contratantes e clientes de que o valor orçado é justo e não superfaturado. O artesanato é um ótimo exemplo disso! Este é mais um passinho em direção à sustentabilidade da economia da cultura estabelecido por mim. Ter a consciência do valor do trabalho considerando todas as experiências que o diferenciam dos outros e o tornam único é empoderar-se e assumir uma posição ativa e humana sobre o próprio trabalho e a sua relação com o dinheiro-fruto.
Caso este tema o(a) tenha interessado e você queira ou precise definir o valor/hora, mas não o consegue fazê-lo sozinho(a), eu posso ajudar! Entre em contacto comigo para saber como. Eu e minha planilha estamos à sua espera ;)
Mais uma vez, as dicas aqui compartilhadas têm base em experiências pessoais e pode ser que não se apliquem inteiramente à sua realidade. E está tudo bem! Caso tenhamos diferentes pontos de vista e lugares de fala, que tal compartilhar? Façamos deste um canal aberto e disponível para o diálogo! Acompanhe o desenvolvimento deste trabalho para mais dicas. Ah, enquanto o próximo artigo não é publicado, ouça à playlist que dá nome às dicas presentes neste texto e até já!
HOW TO #7
#7 "4 dicas para estar atento(a) na definição do valor/hora do trabalho cultural/criativo". HOW TO é uma série de artigos sobre organização no âmbito das ICC a partir das experiências de uma produtora executiva e gestora de projetos culturais.