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Se você tem acompanhado o desenvolvimento do How to já recebeu dicas sobre a organização de um portfólio, a prospeçcão de clientes e a definição do valor/hora do trabalho cultural e criativo. No entanto, nada disso seria necessário sem uma ideia de projeto cultural, não é mesmo? Mas como “materializar” essa ideia de forma teórica, isto é, colocá-la no papel e de forma prática, ou seja, executá-la? O artigo de hoje é dedicado à primeira parte da questão e, para isso, abaixo seguem 4 dicas para ajudá-lo(a) a organizar a parte textual de um projeto cultural. Antes, uma observação: quando falamos em cultura e arte, diferentes áreas e inúmeras linguagens estão contidas nesses conceitos, logo não seria possível estruturar um artigo que contemplasse a 100% dos critérios, tendo em vista as especificidades de cada área e cada linguagem. Por exemplo: organizar um projeto de criação teatral clássica é diferente de organizar um projeto de exposição fotográfica (áreas distintas) ou de um projeto de criação de teatro com marionetas (linguagens distintas), percebe? Da mesma forma, a natureza do projeto também possui especificidades que diferenciam a forma de organizá-lo: criação é uma coisa, digressão/circulação é outra, arte-educação também e assim por diante. Portanto, as dicas aqui apresentadas são genéricas, mas que, de uma forma ou de outra, acredito que o(a) ajudarão nesse processo de “materialização” teórica.
Ok, mas por que preciso “materializar teoricamente” meu projeto cultural e criativo? Penso que, de forma geral, seja para estruturar ideias e fazê-las compreensíveis a outras pessoas, candidatar propostas a apoios, sejam eles públicos ou privados (prémios), e vender produtos e serviços para contratantes/clientes em prospecção. Porém, se considerarmos o impacto transversal da cultura, da arte e da criatividade na vida em sociedade, arrisco a dizer que um projeto cultural e criativo serve para lançar alternativas de auxílio à compreensão e ao se relacionar com a realidade, apresentar inovações à área cultural e criativa, incentivar o desenvolvimento de indicadores de avaliação específicos para o setor, estimular a formação de públicos, incitar o financiamento de iniciativas culturais e criativas, entre outros.
Bom, imagino que não seja a primeira vez que você se depara com o 5W-2H (Who – quem; What – o que; When – quando; Where – onde; Why – por que; How – como; How much – quanto) para a escrita de um texto ou então para uma investigação, por exemplo. E não diferentemente na escrita de um projeto cultural e criativo essas são as perguntas orientadoras. No entanto, em termos de “hierarquia” e conteúdo, é raro encontrar orientação, portanto é a isso que o How to #8 vem tentar dar resposta.
1. Núcleo base
Do meu ponto de vista, o núcleo de um projeto cultural e criativo centra-se em torno do “O que”, “Por que” e “Como” e, por isso, devem ser as partes do texto melhor escritas e fundamentadas e com mais detalhes.
“O que” diz respeito ao que é a proposta, ou seja, qual será o produto final após o processo execução do projeto. Pode ser, por exemplo, a criação de um espetáculo de teatro com marionetas para crianças da primeira infância ou uma exposição fotográfica com mulheres sobre o feminismo e o feminino ou então um festival de música independente para novos criadores, entre outros. O “O que” é tão simples quanto uma frase, no entanto, apenas isso não é suficiente. Dentro dessa primeira categoria estão também a sinopse e a exposição do projeto. Por “exposição do projeto” entendo que deva ser apresentada de forma mais palpável o que se pretende fazer (isto é, todas as ações e atividades necessárias no processo de criação, curadoria, programação etc., como por exemplo, investigações no terreno, compra e leitura de livros específicos, formações, residências e assim sucessivamente) e quais as ferramentas artísticas essenciais para o concretizar. A conjugação desses aspetos deve ajudar a evidenciar a inovação e a originalidade do projeto.
“Por que” está relacionado aos objetivos, tanto geral quanto específicos, e à justificativa. Objetivo geral é, para mim, aquilo que se quer alcançar de forma abrangente e imediata (ex.: o que se quer, de forma generalizada, com um espetáculo de teatro com marionetas para crianças da primeira infância é contribuir para a diversidade na oferta teatral e cultural de um território e criar um espetáculo com foco no público de 1 a 3 anos de idade). Já os objetivos específicos têm a ver diretamente com o que é proposto no projeto (ex.: por objetivos específicos, um espetáculo de teatro com marionetas para crianças da primeira infância busca apresentar a marioneta como outra forma de comunicação e promover a formação de público para essa linguagem em específico, uma vez que as marionetas ainda são pouco exploradas em relação às outras linguagens teatrais). No que toca à justificativa, são os motivos que o(a) levaram a querer criar tal projeto a partir de determinados indicadores identificados no terreno em que se pretende atuar (ex.: a pouca oferta de programação teatral para bebés, a infantilização da maioria dessas produções, entre outros).
“Como” está associado à forma como se pretende implementar o projeto por meio do plano de gestão. O plano de gestão deve descrever, de forma objetiva, como serão articuladas as principais linhas orçamentais (ou seja, para onde será destinado grande parte do dinheiro), a calendarização apontada (isto é, no período de tempo estipulado), os recursos humanos mobilizados (tanto ficha técnica quanto apoiadores e parceiros) e os materiais listados. Não há um modelo único para a escrita do plano de gestão, mas aconselho a conversar com algum(a) produtor(a) ou gestor(a) cultural mais experiente para o(a) auxiliar a determiná-lo.
2. Quem de nós dois
De forma a ser possível escrever o plano de gestão é necessário identificar os rostos que fazem parte do seu projeto, isto é, a ficha técnica.
“Quem” é referente, em primeiro lugar, ao proponente do projeto, ou seja, você ou a sua entidade jurídica (associação, companhia, coletivo, empresa etc.). No entanto, apresentar um currículo com as suas hard skills, isto é, onde estudou e o que já fez/criou, não é suficiente. Para “ganhar o coração” daquele(a) que o(a) está a avaliar é preciso explicar o porquê você ou sua entidade jurídica é o ideal para elaborar e executar o projeto. Quais os indicadores que o diferenciam dos demais profissionais da sua área? Quais os resultados alcançados em experiências anteriores que o habilitam a realizar tudo aquilo que foi proposto no projeto?
Em segundo lugar, faz alusão aos outros nomes apontados na ficha técnica, com quem você poderá contar para garantir a exequibilidade da proposta. O porquê da escolha dessas pessoas em específico é apresentado na nota biográfica de cada um, no entanto, se houver a possibilidade em editá-la, coloque em evidência os aspetos da trajetória daquela pessoa que o(a) fizeram a convidá-la a participar do projeto. No entanto, supondo que ainda não se saiba quem indicar na ficha técnica, pois será realizada uma audição, por exemplo, é interessante indicar que está “a definir” com base nos critérios x e y (ex.: Intérpretes – a definir com base na habilidade de manipulação de marionetas e no interesse em comunicar com o público infantil).
Mas não é só com colaboradores que se constrói um projeto. É bastante importante apontar a comunidade que o(a) apoia no terreno de atuação da proposta, portanto parceiros, mesmo que a parceira não seja financeira, o(a) ajudam a apresentar mais uma camada de relevância do seu projeto naquele local. Pense que os parceiros podem complementar aspetos indispensáveis para a concretização da ideia original, portanto incluir os seus respetivos currículos (sejam pessoas físicas ou entidades) também auxilia a dar créditos ao proposto.
3. Oração ao tempo
Outro pilar do plano de gestão é o cronograma ou calendarização, ou seja, localizar as ações e atividades no tempo e no espaço. Sem nenhuma surpresa, o(s) local(is) de execução e as datas ou períodos de tempo carecem de justificativas, porque em outro tempo e outro espaço, certamente o projeto seria diferente. Se for possível, mostre que o projeto é uma necessidade daquele território por x motivos e que seria importante finalizá-lo no dia/mês y por causa de uma festividade, comemoração, feriado etc., porque auxilia a quem estiver lendo, avaliando ou financiando o seu projeto a visualizá-lo na prática.
No próximo artigo How to trarei dicas de como montar um cronograma utilizando o Excel #ficadica.
4. Money on my mind
O orçamento é a última parte que falta do plano de gestão e, geralmente, a mais temida de se fazer. Dos “Ws-Hs” apontados, o “How much” é o que viabiliza, modifica ou até mesmo inviabiliza por completo uma produção. Produtos/resultados, pessoas, espaços e datas podem ser alterados, mas se o orçamento não chegar para tudo há duas alternativas: ou fazer o que é possível ou não fazê-lo de todo e essa segunda hipótese pode implicar em sérias questões de quebra de contrato, pagamento de multas ou devolução do dinheiro.
Determinar preço é sempre uma dor de cabeça, porque primeiro é preciso fazer pesquisas “por alto” do valor de cada material e produto a ser utilizado no projeto e segundo que de um ano para outro o valor dos impostos, dos produtos, dos transportes etc. pode sofrer grandes alterações, portanto a dica que qualquer produtor executivo dá é “engordar” um pouquinho cada linha do orçamento para depois, se for necessário no momento da execução do projeto, haver flexibilidade para revisões orçamentais.
“Como montar um orçamento utilizando o Excel” também será tema How to, então fique atento(a)!
5. Bônus: Outcome
Há quem acrescente o “R” na sigla 5W-2H-1R, representante dos “Resultados”. Poucos profissionais incluem os resultados pretendidos com o projeto, pois elencar resultados implica num processo de imaginação, prospectiva e estratégia, isto é, de visualizar o futuro na previsão dos impactos e analisá-los. Outros confundem resultados com objetivos, sendo que os resultados têm mais tendência de serem quantificados do que os objetivos, geralmente qualificados. Apresentar o que se espera em termos de resultados pode ser bastante relevante num contexto de financiamento ou compra por parte da iniciativa privada. Os números, nesta sociedade que vivemos, importam muito, portanto fazer as pazes com eles, ainda que sejamos de humanas/humanidades, só nos traz benefícios. Mas não seja maluco(a) e indique como resultado algo megalomaníaco, irreal ou inalcançável apenas para impressionar; inicie por apontar aquilo que está ao seu alcance, como a partilha de conhecimentos e técnicas e promoção da experimentação através de uma formação para x pessoas por exemplo. Não é o bicho-de-sete-cabeças que muitas vezes pensamos ser.
No me canso de lembrar as dicas aqui compartilhadas têm base em experiências pessoais e pode ser que não se apliquem inteiramente à sua realidade. E está tudo bem! Caso tenhamos diferentes pontos de vista e lugares de fala, que tal compartilhar? Façamos deste um canal aberto e disponível para o diálogo! Acompanhe o desenvolvimento deste trabalho para mais dicas. Ah, enquanto o próximo artigo não é publicado, ouça à playlist que dá nome às dicas presentes neste texto e até já!
HOW TO #8
#8 "Materialização teórica de um projeto cultural: como o organizar". HOW TO é uma série de artigos sobre organização no âmbito das ICC a partir das experiências de uma produtora executiva e gestora de projetos culturais.